Funcionamento executivo entre os jovens em relação ao uso de álcool

A adolescência e o início da vida adulta são períodos importantes do desenvolvimento humano marcados pelo aumento de comportamentos de risco e da influência de pares, diminuição do controle por parte dos pais e pelo desenvolvimento de identidade individual. Em meio a estes acontecimentos, muitos jovens começam a consumir bebidas alcoólicas – algumas vezes de modo nocivo, expondo-os a riscos à saúde e prejuízos sociais.

No Brasil, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2012*, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, 67% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental, com 13 a 15 anos de idade, relataram já ter experimentado alguma bebida alcoólica e 22% já sofreram algum episódio de embriaguez na vida.

Nesta perspectiva, duas perguntas interessantes motivaram a realização de um estudo de revisão que analisou as recentes descobertas sobre fatores neurocomportamentais (habilidades cognitivas e comportamentos) associados ao uso de álcool durante a juventude: a) uma vez que relativamente poucos jovens desenvolvem problemas decorrentes do uso de álcool (apesar deste uso ser disseminado), quais fatores individuais poderiam contar como risco diferencial?; b) dados os efeitos neurotóxicos do álcool e que o sistema nervoso central encontra-se em desenvolvimento durante a adolescência, quais as consequências neurobiológicas do uso do álcool nesta fase.

Esta reflexão é muito importante e pesquisas têm buscado compreender a relação entre danos cerebrais que podem ser causados pelo uso pesado de álcool e suas associações com a cognição e o comportamento do indivíduo. Dentre estes potenciais prejuízos, nota-se evidente diminuição nas funções executivas, que são um conjunto de capacidades – como memória, planejamento e abstração – que integradas ajudam o indivíduo a engajar-se voluntariamente em um objetivo, possibilitando-o selecionar estratégias, fazer planejamento e sequenciar ações que serão mais eficientes.

Assim, este estudo examinou evidências neurocomportamentais que pudessem esclarecer a interface entre funções executivas e o consumo de álcool por jovens, tendo em vista que déficits nas funções executivas têm sido relacionados tanto como fator de risco como consequência do uso problemático de álcool.

Déficits na função executiva como preditores do uso nocivo de álcool

Algumas pesquisas mostraram que jovens com histórico familiar de alcoolismo (que sabidamente têm maior risco de desenvolver transtornos relacionados ao uso do álcool devido à influência genética) apresentam déficits estruturais e funcionais que podem predispor a deficiências nas funções executivas. Apesar de tal predisposição não necessariamente levar a comprometimento comportamental, poderia contribuir para um maior risco de consumo prejudicial do álcool, assim como de desenvolver transtornos relacionados ao uso, tal como a dependência.

É interessante notar que, apesar do histórico familiar de alcoolismo e alterações comportamentais serem importantes fatores que influenciam o uso de álcool entre jovens, os estudos mostram que ter amigos íntimos que bebem seria ainda mais relevante para o uso nocivo dessa substância.

Déficits na função executiva como consequências do uso/abuso de álcool

O uso precoce de álcool por jovens pode ter efeitos significativos sobre os processos neurocomportamentais, afetando estrutura e função do cérebro. Nota-se que funções executivas, como planejamento e tomada de decisão, muitas vezes podem ser comprometidas pelo uso nocivo do álcool. Por exemplo, estudos apontam associação entre o beber pesado episódico (BPE, definido pelo National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism – NIAAA como a ingestão de 5 ou mais doses** de álcool por ocasião para homens e 4 ou mais para mulheres) e redução de memória, prejuízo na memória operacional (memória de curta duração importante na organização e manipulação do fluxo de informações) e redução de capacidade visuo-espacial . Entretanto, ainda não há conclusões sobre o impacto ou permanência desses déficits e possibilidades de recuperação.

De maneira geral, os estudos têm explorado os mecanismos envolvidos nos déficits nas funções executivas em indivíduos com maior risco de desenvolver dependência, além de sugerir que, mesmo quando alterações comportamentais não são observadas, podem ocorrer modificações na conectividade cerebral e suas microestruturas. A autora da revisão ressalta que maior atenção deve ser direcionada às consequências neurocomportamentais do consumo de álcool em jovens e também aos fatores neurocomportamentais que podem predispor os jovens ao uso nocivo dessa substância, sendo necessários estudos longitudinais – ou seja, que avaliem seguidamente os indivíduos ao longo dos anos – para determinar a relevância das alterações nas funções executivas para a trajetória do uso de álcool e desenvolvimento de transtornos relacionados.

Para saber mais sobre este tema, acesse: Álcool e jovens.

*Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar – PeNSE 2012. Rio de Janeiro: IBGE; 2013.
**Segundo o NIAAA, uma dose equivale a 14 g de álcool puro e corresponde a 355 ml de cerveja ou chopp, 150 ml de vinho e 45 ml de destilados.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool