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As intervenções precoces e o modelo de clínica-escola para tratamento de adolescentes usuários de drogas

SPDM – Dr. Cláudio Jerônimo da Silva
No último post discutimos tipos de consumo e os diversos padrões de uso de drogas em adolescentes. As perguntas agora são: Como e quando intervir? Assim como o consumo e os problemas dele decorrentes são um continuum, as intervenções também devem ser plurais, porém focadas. Não adiantam ações descoordenadas, sem foco e sem adequado controle.

A prevenção é o principal caminho e as evidências apontam que dois grupos de ações são os que mais funcionam. No primeiro grupo, estão medidas chamadas de universais, que atingem todos os indivíduos de uma sociedade sem distinção e que regulam o acesso e a disponibilidade de droga. São elas: o aumento do preço (para drogas lícitas, como o álcool e tabaco); o controle dos pontos de venda; a restrição da idade para aquisição das drogas lícitas com adequada fiscalização; e a redução da oferta, combatendo o tráfico (para as drogas ilícitas). Como podemos observar essas medidas são de responsabilidade do Estado através de Políticas Públicas.

O que nós, cidadãos, podemos então fazer? Pressionar o Estado através dos nossos eleitos para que essas medidas sejam discutidas no Congresso Nacional e Câmaras Municipais de forma que se transformem em lei e que sejam fiscalizadas adequadamente. Existem interesses econômicos poderosos que influenciam as políticas públicas e querem evitar que medidas eficazes sejam implementadas, como é o caso das propagandas de bebidas alcoólicas, cuja restrição enfrenta muita resistência desses grupos.

O Estado precisa fazer o contraponto e nós devemos pressionar e fiscalizar a ação do Estado. O segundo grupo de medidas eficazes é chamado de prevenção seletiva ou indicada. Na prevenção seletiva, os grupos de adolescentes com maiores riscos de uso de droga devem ser identificados e acompanhados. Por exemplo: crianças e adolescentes mais impulsivos, ou que tenham alguma doença psiquiátrica, como transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, devem ser acompanhados mais de perto porque têm maiores chances de se envolverem com o uso. Esse papel é dos pais e dos professores, principalmente. Uma escola bem preparada conseguirá identificar esse grupo e estabelecer medidas preventivas específicas para ele.

A prevenção indicada é aquela que atenta para os fatores de riscos específicos de um único adolescente. Ou seja, é necessário identificar o indivíduo e estabelecer medidas específicas que o protejam do uso experimental ou da evolução para uso problemático. Esse é principal papel dos pais, que são os responsáveis por acompanhar o desenvolvimento dos seus filhos, monitorando o que eles fazem, com quem andam, bem como qualquer alteração de comportamento, através de um diálogo eficaz e afetivo. Geralmente, as medidas preventivas universais e seletivas são também primárias. Ou seja, elas visam diminuir as chances de que um adolescente venha a experimentar a droga. As medidas preventivas indicadas são geralmente também do tipo secundária ou terciária.

Ou seja, elas visam tratar os indivíduos que desenvolveram o problema e reabilitar funções perdidas por conta do problema. A maior questão é o que fazer com adolescentes que já desenvolveram problemas e têm pouco suporte social e familiar. São aqueles adolescentes cujas medidas preventivas primárias já falharam, porque a família é desestruturada e disfuncional, a escola não conseguiu incluí-los e apresentam alguma comorbidade psiquiátrica. São meninos e meninas que estão na rua, nos abrigos, ou sofrendo agressões, abuso e totalmente sem acompanhamento nas suas casas. São eles que são internados na UNAD – Unidade de Atendimento ao Dependente Químico – e que as famílias não aparecem para visitar, porque são tão carentes de suporte quanto os próprios adolescentes. Algumas vezes usam droga também. Outras não querem recebê-los de volta em casa porque sabem que não darão conta do problema sem suporte adequado. Para esses adolescentes, hoje o sistema de saúde dispõe dos CAPS que devem fazer a conexão com a escola, com o suporte social e o de saúde. Mas como acompanhar o adolescente nestes serviços todos se ele mal tem onde morar? A taxa de abandono ao tratamento é imensa e eles têm crises recorrentes e precisam ser reinternados muitas vezes.

Ou ficam na rua. Nos Estados Unidos, existe um tipo de instituição que combina abrigo, escola, tratamento e reinserção social. Seria um modelo interessante a ser adotado no Brasil para este público. É uma clínica-escola onde o adolescente receberá de maneira integrada a educação formal acompanhada por uma equipe de especialistas em dependência química e de reintegração social. O tratamento de adolescentes precisa ser integrado com educação, esporte e lazer. Aqueles que têm família e algum suporte social podem passar o dia nessa escola e voltar para casa à noite. Aqueles que não têm podem ficar alojados no período noturno.

Aos finais de semana, atividades esportivas e de lazer são realizadas dentro da própria clínica e na comunidade, como teatro, cinema, etc.

Não se trata de internação, nem de segregação, mas de tratamento integrado com suporte social. O espaço para estas clínicas devem ser amplos e abrigar estrutura para esporte e lazer, como piscina, academia, quadras além de salas de aulas e consultórios. As aulas são realizadas por professores, monitores e psicólogos que ajudam na mediação de conflitos, na aplicação das regras sociais e na construção da cidadania. Prevenir o uso de drogas e tratar adolescentes usuários exige muito mais do que discurso inclusivo. Exige competência e ações concretas além de investimentos em capacitação e estrutura física.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas