Entrevista com Dr. Yuan Pang Wang – Transtornos Mentais e uso de Álcool

Dr. Wang é médico psiquiatra e possui Mestrado e Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). É Médico Assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e Orientador Colaborador do Programa de Pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Além disso, é Pesquisador do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica (NEP) da FMUSP. Desde 2012 integra o Conselho Científico CISA.

1. De acordo com os estudos que o senhor vem realizando a partir da análise do banco de dados do São Paulo Megacity, qual é a prevalência de transtornos mentais na região metropolitana de São Paulo? E qual a gravidade destes transtornos?

O Levantamento São Paulo Megacity investigou a prevalência de transtornos mentais de 5037 indivíduos que residem na região metropolitana de São Paulo, entre os anos de 2005 e 2007. Este estudo selecionou uma amostra representativa da população e entrevistou os participantes no seu domicílio através do questionário WHO World Mental Health Composite International Diagnostic Interview (WHO WMH-CIDI). Cerca de um terço (29,6%) dos respondentes foram diagnosticados como portadores de pelo menos um transtorno mental no ano anterior à entrevista e 44,7% ao longo da vida. A gravidade dos transtornos variou como leve, moderado e sério, com cada grupo representando um terço do total dos casos afetados.

2. Quais são os principais achados em relação ao uso do álcool? Foram encontradas associações entre problemas com o álcool e outras doenças crônicas?

Os transtornos relacionados ao uso do álcool (abuso e dependência) totalizam 4,0% dos casos no ano anterior à entrevista e 13,1% ao longo da vida. Além disso, 17,5% dos respondedores relataram um padrão de uso pesado de álcool ao longo da vida, sendo 26,3% homens e 10,9% mulheres.
Estes transtornos relacionados ao uso do álcool apresentam um padrão de comorbidade (outra doença que ocorre simultaneamente) bivariada com várias patologias crônicas, principalmente com doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, artrites, cefaleia/enxaqueca e insônia. Entretanto, após ajustar as comorbidades, apenas os transtornos relacionados ao uso de drogas, uso de tabaco e o beber pesado foram correlacionados aos transtornos do uso de álcool.

3. De que forma os fatores individuais (ex: sexo, idade, condição socioeconômica e área de residência), influenciam na ocorrência concomitante de duas ou mais doenças crônicas em um mesmo indivíduo? E para o transtorno relacionado ao uso de álcool?

Alguns fatores individuais e de contexto (por ex., local de residência, desigualdade social, privação social) podem aumentar a chance para a ocorrência concomitante de duas ou mais doenças crônicas no mesmo indivíduo. Provavelmente, este padrão se deve a um complexo mecanismo de causalidade concorrente ou fatores de risco compartilhados.
Especificamente em relação aos fatores individuais associados aos transtornos do uso de álcool, verificamos que aquelas pessoas mais jovens, homens e de maior renda apresentam uma maior probabilidade de sua ocorrência. Por outro lado, no contexto de residir em áreas de alta privação social, as chances de apresentar um transtorno relacionado ao álcool aumentam.

4. Em sua opinião, o que pode ser feito para minimizar a incidência de transtornos mentais e de doenças crônicas no Brasil?

Os estudos epidemiológicos indicam os grupos de maior vulnerabilidade para os transtornos relacionados ao uso de álcool. Assim, campanhas preventivas devem ser direcionadas a esses grupos de maior risco: jovens, homens, maior renda e residência em locais de alta privação social. Visto que frequentemente os transtornos relacionados ao uso de álcool ocorrem de forma concomitante em várias doenças clínicas, os médicos devem inquirir sistematicamente sobre o hábito de consumo de etílicos, para que possam tratar os seus pacientes de forma integrada e encaminhar a um tratamento mais específico quando se fizer necessário.

5. O Projeto São Paulo Megacity é um estudo extenso e altamente criterioso. Como dica para os futuros pesquisadores, o que o senhor considera fundamental para a realização de grandes projetos como este? E as parcerias? O senhor considera que a parceria feita com o CISA foi importante?

O estudo São Paulo Megacity faz parte do estudo mundial World Mental Health Survey, com visibilidade internacional e nacional. Além do apoio institucional da USP, Universidade de Harvard, Organização Mundial da Saúde, o estudo foi financiado quase que totalmente pela FAPESP. No entanto, alguns subprojetos atrelados ao estudo principal só foram possíveis mediante parcerias nacionais, por exemplo, da Secretaria Estadual de Segurança Pública em relação ao estudo de violência. Em relação ao CISA, a parceria foi fundamental para explorar a questão do uso de álcool e outras substâncias na população geral da região metropolitana de São Paulo.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool