Austrália reduziu danos com posto de saúde exclusivo para usuários de drogas

O governo do estado da Nova Gales do Sul mantém há 13 anos, em Sydney, uma ousada iniciativa em políticas de drogas: o Centro de Uso de Drogas Injetáveis sob Supervisão Médica (MSIC , sigla em inglês). A política se alinha às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o controle do HIV entre usuários de drogas.

Em documento lançado dia 11, o organismo internacional reiterou a defesa da redução de danos, que se propõe a oferecer alternativas de suporte ao usuário, mesmo que ele continue usando drogas. Apesar do apoio internacional, a estratégia ainda é polêmica no Brasil, tendo ganhado destaque recentemente por fundamentar a atual política de enfrentamento do crack na cidade de São Paulo.O MSIC é um posto de saúde onde os usuários injetam suas drogas sob a supervisão de uma equipe de saúde. Na década de 1990, o bairro Kings Cross, no centro da cidade, se tornou o epicentro de uma escalada nacional no uso de opiáceos injetáveis, com o aumento de 321 para 1.116 mortos, dos quais cerca de 10% ocorreram em Kings Cross.

O centro foi aprovado em caráter de teste em 2001, visando experiências semelhantes na Europa.O MSIC se propôs a reduzir as mortes por overdose e as infecções decorrentes do uso compartilhado de seringas, minimizar os problemas associados ao uso de drogas em espaços públicos e providenciar uma porta de acesso aos serviços de saúde. Os opositores ao MSIC alegaram que a medida estimularia o consumo de drogas, desviaria recursos públicos para uma atividade ilegal e transformaria o bairro num destino de peregrinação de usuários.Em 2010, após nove anos de polêmica e sucessivas prorrogações do caráter probatório do posto, o MSIC foi definitivamente incorporado à rede de saúde de Sydney. É o único do gênero no hemisfério sul e um dos 90 existentes no mundo.

Menos socorros e seringas

Segundo a enfermagem-chefe do centro, a consolidação do estabelecimento pode ser explicada pelos resultados de várias avaliações produzidas por instituições independentes, como a polícia ou institutos de saúde pública. Os atendimentos via ambulância reduziram 80%, demostrando relação custo-efetividade. Ademais, o dinheiro é financiado por apreensões da polícia, portanto, o dinheiro não deriva do bolso do contribuinte.Outros dados dos relatórios produzidos: o descarte de seringas nas ruas de Kings Cross foi reduzido em 50% e sem o aumento de crimes relacionados a drogas , fato que pode ser atribuído às reuniões mensais com a polícia australiana. As mortes por overdose sofreram redução substancial, porém não se pôde atribuir diretamente o fenômeno ao MSIC, já que em outras partes do estado também houve diminuição.A principal demanda do centro, cerca de 70%, está associada à oxicodona, opiáceo prescrito para dor crônica e de uso injetável. O fato da heroína não ser encontrada facilmente e de péssima qualidade, faz com que as pessoas diluam o comprimido de oxicodona em água, porém o novo comprimido, quando diluído, transforma-se em gel, tornando-se um perigo à saúde do dependente.

Zero morte por overdose

O uso nos centros é feito em boxes com uma espécie de escrivaninha, em vez de leitos, com duas cadeiras em cada e uma caixa de descarte de material pérfuro-cortante. O dependente se dirige até ao balcão, tritura seu comprimido e recebe uma colher para diluição, uma seringa e um filtro especial a ser acoplado na ponta desta, o que permite a retirada de material graxo e outras impurezas não compatíveis com o uso intravenoso. A equipe fica atenta a qualquer sintoma de overdose.Casos mais leves só requerem oxigênio. Casos mais graves precisam ser levados para a sala de ressuscitação anexa. Existe um protocolo rígido para o atendimento, e, quando necessário, é administrada uma dose de naloxona, um eficiente antídoto para opiáceos. Já foram tratadas mais de 4.700 overdoses no posto, sem nenhuma morte.O usuário se recupera em uma sala final, onde tem acesso a educadores em saúde e a um profissional que encaminha os que desejam para serviços de saúde ou assistência social.

Já foram feitos 10 mil encaminhamentos, metade dos quais para tratamento de dependência de drogas. Cerca de 40% destes nunca tinham acompanhado sua condição.Conforme os dados, a prevalência de HIV entre os usuários é de 1% (relativamente baixa, segundo a OMS), mas a de hepatite C é de 85%. Não há estudos, porém, que possam atestar o impacto da iniciativa sobre essas infecções.A experiência do MSIC com overdose de opiáceos está sendo aproveitada para pesquisa.

Um protocolo clínico compara o uso de naloxona por injeção intramuscular com um spray intranasal. O conhecimento também é partilhado com a comunidade: na última quarta-feira, o posto ofereceu um curso sobre uso de naloxona para os usuários.A recomendação de capacitar o usuário e seus acompanhantes no uso do antídoto foi justamente a principal novidade das recomendações da OMS para o controle de HIV entre usuários de drogas.
Autor:
OBID Fonte: agenciaaids