Drogas podem comprometer cuidados com saúde de usuários

As drogas podem comprometer alguns aspectos da vida dos usuários, interferindo, principalmente, na percepção que essas pessoas têm sobre a sua saúde atual. A capacidade de alcançar e manter um bom nível de funcionamento, nestas pessoas é afetada, podendo implicar em dificuldades para a realização de cuidados necessários para manter ou promover a saúde.

Todos esses aspectos comprometem o estado de bem-estar e estão atrelados à qualidade de vida, é o que mostra estudo da Escola de Enfermagem do interior de São Paulo. A pesquisa, que avaliou grupos de usuários de crack, de cocaína e de múltiplas drogas, revelou que a qualidade de vida pode ser prejudicada pelo uso das drogas. Além disso, esse uso afeta significativamente a saúde física, psicológica e social desses indivíduos. A despeito do que se pensava inicialmente, o estudo revelou que os usuários de crack apresentaram problemas muito mais graves relacionados ao trabalho, família e com a justiça do que com a saúde física.

A pesquisa foi realizada com 140 usuários de drogas, clientes do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad) de uma cidade do interior de São Paulo. Desses, 41 eram usuários de cocaína; 54, de crack e 45, de múltiplas drogas. A maioria era de homens, católicos, com baixo nível de escolaridade e que trabalhavam informalmente. O objetivo do estudo foi compreender melhor a qualidade de vida de usuários de cocaína/crack e múltiplas drogas nos aspectos da saúde física, psicológicas e sociais.Desemprego e baixa escolaridadeOs resultados apontam outros dados importantes para a implementação de políticas públicas no tratamento e prevenção da dependência química. O estudo mostrou que há uma parcela considerável de usuários de cocaína e crack mais jovens quando comparados aos de múltiplas drogas. O primeiro uso de cocaína, crack e múltiplas drogas ocorreu em pessoas na fase da adolescência (média de 14,9 anos). As drogas usadas nesta fase foram os inalantes, seguidos pelo tabaco e maconha, aos 15 anos.

Como a literatura tem evidenciado que a idade do primeiro uso acontece cada vez mais cedo, esses dados podem ser base para ações preventivas junto a grupos dessa idade.Quanto ao estado civil, a maioria dos usuários de cocaína e crack se declarou solteira; já os de múltiplas drogas, divorciados/separados. A pesquisadora lembra que um relacionamento estável pode gerar efeito protetor na idade adulta, mas também que o divórcio pode contribuir para um aumento do consumo de substâncias, principalmente o álcool. Outro fator de proteção importante frente ao uso de drogas, que pode auxiliar no processo de recuperação da dependência é a religiosidade.

Na pesquisa, a maioria dos usuários revelou professar a religião católica.O estudo também detectou baixos níveis de escolaridade: ensino médio completo ou incompleto, entre os usuários de cocaína; os usuários de crack e múltiplas drogas mal completaram o ensino fundamental, uma vez que a droga contribui fortemente com o abandono escolar e prejudica o desempenho no estudo. O mesmo foi revelado em relação ao emprego. A maioria dos usuários encontrava-se fora do mercado de trabalho formal, justificados por não ter formação profissional qualificada, ou mesmo pelo uso da droga que tem sido considerada um dos principais motivos para a perda de emprego e absenteísmo no trabalho.Já a procura por tratamento é feita mais tardiamente, pelos próprios usuários de drogas ou seus familiares, numa fase em que estão fazendo uso crônico dessas drogas e começando a apresentar problemas de saúde.

A pesquisadora alerta que, apesar da gravidade e dos riscos do uso do álcool nos usuários de cocaína e crack e as consequências para a saúde desses usuários, na prática dos serviços essas combinações ainda são pouco investigadas.A avaliação de qualidade de vida tem se tornado um relevante critério para mensurar resultados terapêuticos em diferentes patologias crônicas, como a dependência química. Um dos benefícios em avaliar está entre paciente e profissional da saúde, uma vez que ambos conseguem perceber o processo de doença de forma mais ampla, localizando as prioridades, melhorando a compreensão por parte do profissional de saúde e a confiança por parte do paciente..

A Senad possui estudos relativos sobre o consumo do crack: “Perfil dos usuários de crack e/ou similares no Brasil” e “ Estimativa do número de usuários de crack e/ou similares nas Capitais do Brasil”, acessados pelo endereço: www.obid.senad.gov.br > Pesquisas e Estatísticas > Estatísticas > Populações específicas.
Autor:
OBID Fonte: Agência USP de Notícias