Homem superou o alcoolismo e voltou, concursado, ao antigo emprego

Diário Gaúcho
Número de casos de dependentes de álcool tem aumentado ano a ano no Rio Grande do Sul.

O baixo rendimento, as faltas ao trabalho (sobrecarregando outros funcionários), a irritabilidade, que traz prejuízos nas relações, podem indicar que um colega de trabalho precisa de ajuda por conta de uma doença grave. A sonolência diurna, quedas e traumas frequentes, ansiedade, depressão, sintomas gastrointestinais são outros sinais de alerta que podem ser identificados por quem convive com alguém que faz uso abusivo de álcool.

Número de casos cresce no RS

Nos últimos seis anos, conforme o Ministério da Previdência, quase 100 mil brasileiros se afastaram das atividades profissionais, ou foram demitidos em função do alcoolismo. No Estado, dados do Departamento de Políticas de Saúde e Segurança Ocupacional do ministério apontam que o número de trabalhadores que solicitaram auxílio-doença por transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool estão aumentando. Em 2009, foram 1.434 pessoas. No ano seguinte, 1.694 e em 2011, foram 1.723 trabalhadores.

De acordo com a psiquiatra Lísia Von Diemen, do Hospital de Clínicas, o alcoolismo pode gerar a incapacidade laboral, principalmente pelo desenvolvimento da dependência do álcool, ou de complicações clínicas relacionadas, incluindo cirrose, problemas cardíacos, psiquiátricos, podendo chegar à demência.

A volta por cima

Depois de perder vários bons empregos, Paulo César, hoje com 60 anos, passou por um tratamento numa comunidade terapêutica durante um ano e, há 16 anos, faz parte dos Alcoólicos Anônimos.

Cozinheiro de um hospital de grande porte, na época Paulo chegou a ser exonerado da função por consequência do alcoolismo. Não havia, até então, um código internacional de doenças (CID) para isso.

– Quando bebia muito, não comparecia ao trabalho, dava desculpas. Não tinha condições de trabalhar, vivia me cortando, me queimando. Não usava os equipamentos de proteção individual e até bebia nos intervalos – lembra.

Paulo relata que achava que ninguém percebia que ele abusava da bebida (chegou a usar outras drogas também). E os colegas tinham vergonha de alertá-lo. Foi quando a esposa, com quem é casado há mais de 30 anos, deu um ultimato para que buscasse tratamento. Ele já havia se colocado em várias situações de risco além do trabalho, como no trânsito.

– Eu me sentia um zero a esquerda. O alcoolista contagia 60 pessoas na sua volta: família, vizinhos, colegas de trabalho.

Depois do retorno ao convívio da família, o cozinheiro quis retomar a atividade profissional.

– Eu queria voltar (para o antigo emprego), mas aquela minha imagem negativa do passado me impedia – recorda.

Ele decidiu enfrentar, prestou concurso, foi aprovado e voltou atuar no mesmo local e função.

– Eu aproveitei a chance, voltei com outro comportamento, outra atitude, procurando a humildade. Não há mais atrasos, não há incompatibilidade com chefias – conta o cozinheiro, que ainda teve a oportunidade de reconciliar-se com um colega com quem teve um desentendimento no tempo da dependência.

Hoje, ele participa das reuniões do AA (as fichas indicam os anos de sobriedade), faz atividades físicas, segue trabalhando, está prestes a concluir a graduação.

– É uma doença sutil, traiçoeira. Pode pegar na dor, na alegria. Tenho que estar alerta. As reuniões dos Alcoólicos Anônimos me dão equilíbrio.

Quando é excesso

O ideal é buscar ajuda quando há um consumo de risco:

Mulher: três doses por ocasião ou sete por semana

Homem: quatro doses por ocasião, ou 14 por semana

Idosos: uma dose por ocasião, ou sete por semana

Uma dose de álcool: um cálice de vinho, ou 1 long neck, ou 1 dose (30ml) de whisky ou destilado

Instituto do Álcool nos Estados Unidos

Números

Trabalhadores que solicitaram auxílio-doença por transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool no Rio Grande do Sul

2009: 1.434
2010: 1.694
2011: 1.723

Trabalhadores que solicitaram auxílio-doença por transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool e outras drogas no Rio Grande do Sul

2009: 4.500
2010: 4.945
2011: 5.267

Dados do Departamento de Políticas de Saúde e Segurança Ocupacional, do Ministério da Previdência Social

Alcoólicos Anônimos

Você pode encontrar um grupo de AA mais próximo da sua casa no site www.aars.org.br. O contato do escritório de Porto Alegre é o 3226-0618. A Capital tem mais de 30 grupos.

Na rede pública

Qualquer unidade básica de saúde é porta de entrada para o atendimento de pessoas (ou familiares, amigos, colegas de trabalho) que identifiquem a necessidade de cuidado por conta do uso abusivo de álcool.

Lá, é possível dar início a uma investigação clínica e verificar os efeitos que o álcool produziu no organismo e identificar o grau de dependência (independente se a situação for inicial ou já mais agravada).

A rede de saúde também tem cinco Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD) na Capital. O atendimento é feito sem requisito prévio, basta ir até um dos endereços. Além do acompanhamento clínico, há atendimento com psicólogo, psiquiatra, terapia ocupacional, grupo de apoio, entre outros.

Há, ainda, duas emergências de saúde mental (Postão da Cruzeiro e do IAPI). Mas, muitas vezes, a recomendação é levar a pessoa alcoolizada (se bebeu muito e desmaiou, por exemplo) numa emergência clínica, pois pode haver risco de morte.

Onde ficam os Caps-AD

Atendimento das 8h às 17h

Caps-AD Vila Nova: Estrada João Vedana 355, telefone 3266-1623.

Caps-AD Gerência Distrital Glória Cruzeiro Cristal: Rua Raul Moreira 253, telefone 3289-5734.

Atendimento 24 horas

Caps-AD Grupo Hospitalar Conceição: Av. Carneiro da Fontoura, 57, telefones 3345-1759 e 3345-1888.

Caps-AD Gerência Distrital Partenon Lomba do Pinheiro: Rua Dona Firmina 144, telefone 3289-5740.

Caps-AD IAPI: Rua Valentin Vicentini, esquina Novo Hamburgo (Postão do IAPI), telefone 3289-3459.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)