Crack é mais grave em 34 cidades

O POVO online – Fortaleza
Mapeamento realizado pelo Observatório do Crack indica que 75,5% das cidades no Estado já apresentam circulação da droga. Para assessora, crack já alcançou todo o Ceará

Os primeiros passos de Wesley do Nascimento, 25, nas drogas são como o de muitos que se arriscam nesse mundo. Os amigos apresentaram a maconha aos 14, aos 16 ele descobriu a cocaína. Tudo consumido, segundo ele, aos fins de semana. No ano seguinte, quando o crack entrou na vida, o efeito foi “devastador”. “Eu cheguei ao ponto de dormir pensando na droga e acordar pensando no que eu ia ter que fazer, furtar, para conseguir mais”. Ele tinha 17 e morava em Pacatuba, com 72 mil habitantes.

O município, na Região Metropolitana, é citado no Observatório do Crack, mapeamento desenvolvido pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). Outros 138 municípios também relataram circulação da droga em seu território. Do total dos 184 no mapa, 30 não foram pesquisados. Foram 34 cidades em que foi classificado como alto o nível dos problemas relacionados ao crack.

Wesley, que está se recuperando na Comunidade Atos, em Fortaleza, relata que em Pacatuba o tráfico domina a cidade. “Interior é carente, nem todo mundo tem condições de pagar tratamento. Eu via meninas novas se prostituindo, menino novo morrendo, traficante matando”.

Na avaliação da assessora especial de Políticas Públicas sobre Drogas do Governo, Socorro França, a droga está presente em todos os municípios cearenses. “O trabalho com dependente químico é lento, porque a doença é progressiva e incurável. Temos consciência que é um trabalho doloroso, porque as recaídas estão aí. Nesse trabalho, nós partimos do zero”.

A expectativa é pela inauguração do Centro de Referência, que funcionará na Escola Juvenal Galeno, no Centro. Ainda sem prazo. De acordo com Socorro, falta finalizar a parte estrutural da sede antes da mudança. (Viviane Sobral)

VIDA

“Por causa do crack eu cheguei a…”. As reticências dessa frase podem comportar um mundo. No de Joana (nome fictício), 36, inclui dramas como “furtar, ter tuberculose, abandonar filhos, ser presa, me prostituir”. O contato com as drogas começou aos 16. Na sequência, vieram o cigarro, álcool, maconha e cocaína, segundo ela, por influência de amigos.

“O crack foi devastador. Perdi o emprego, a responsabilidade. Para sustentar o vício, tirei tudo da casa da minha mãe”, conta. O uso foi dos 20 aos 35. Depois de três internações mal-sucedidas, Joana soube que um primo estava na unidade de acolhimento Dr. Silas Munguba.

A moça pediu para ser internada e lá passou sete meses. No feriado da padroeira de Fortaleza, completou um ano limpa, já de volta ao convívio familiar, com emprego novo e aparência renovada.
O período na unidade ela lembra com carinho. Foi bom para parar, pensar, aprender a valorizar as pequenas coisas que a droga não deixava enxergar. O crack a trouxe uma tuberculose. A tuberculose a levou um pulmão. Mas ela conseguiu recuperar a vida.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)