Fatores associados com a reincidência de beber e dirigir no estado do Rio Grande do Sul, Brasil

Nas últimas décadas diversos estudos advertiram sobre o perigo de dirigir sob a influência de álcool devido ao aumento no risco de acidentes, lesões graves e mortalidade. O consumo de álcool prejudica habilidades como reflexo, percepção de velocidade e obstáculos, acuidade visual, reduzindo a capacidade de controlar e conduzir o veículo. Ainda, o julgamento é prejudicado e ocorre tendência ao comportamento mais impulsivo ou agressivo.

Estima-se que cada 2 dg/L de álcool presente no sangue aumenta 2 vezes a probabilidade do motorista envolver-se em acidente fatal. Com concentração alcoólica no sangue de 5-7 dg/L essa probabilidade aumenta 4 a 10 vezes. Ainda, condutores envolvido em acidentes e com concentração de 10 dg/L de álcool no sangue exibem 90% de chance de serem os responsáveis.

No Brasil, acidentes de trânsito são um grave problema e a mortalidade por essa causa em nosso país é de 22,4 para cada 100 mil habitantes, sendo essa a segunda causa de mortes violentas entre os jovens. Por esse motivo desde 1997 vem ocorrendo mudanças nas leis de trânsito com ênfase nas restrições do beber e dirigir, com suspensão da habilitação por 12 meses, multa elevada e necessidade de curso de reciclagem para os infratores. Outra medida também foi a proibição de venda de bebidas alcoólicas em estradas, visto que outro estudo em estradas nacionais indicou que 4,8% de 3398 condutores infratores revelaram níveis de álcool no sangue.

É preocupante que haja um grupo de jovens condutores composto por homens entre 18 e 29 anos que tem sido identificados como reincidentes nessa grave infração. O objetivo do presente estudo foi avaliar as variáveis associadas com a recorrência de violações de trânsito por ingestão de álcool no estado do Rio Grande do Sul.

Foram incluídos dados de mais de 3 milhões de habilitações de motoristas emitidas pelo DETRAN-RS* entre janeiro de 2009 e dezembro de 2010, analisado o comportamento de beber e dirigir e considerados reincidentes aqueles flagrados dirigindo sobre influência de álcool mais que uma vez nos últimos 24 meses. Idade, gênero, tipo de veículo conduzido no ato da infração, tempo de habilitação, escolaridade, resultado do teste psicotécnico e categoria da habilitação foram outros dados coletados. Os subgrupos reincidentes e não reincidentes foram comparados.

Os resultados indicam que 0,3% foram autuados por dirigir sob efeito de álcool (12.204 motoristas; 3 para cada 1.000 motoristas) dos quais 4.41 % eram reincidentes. As categorias de habilitação A (moto), E (caminhões pesado) e AE (combinação das duas) tiveram menos reincidentes. Motoristas de ônibus e mini ônibus foram infratores com a menor frequência, provavelmente pelo controle realizado pelos empregadores (estudos nacionais anteriores apontam que motoristas profissionais são menos autuados pelo beber e dirigir em relação a motoristas não profissionais, e estão sujeitos a maior fiscalização).

De forma surpreendente, os homens representaram 98% dos infratores reincidentes e 97% dos não reincidentes. Esse resultado indica que os homens estão menos preocupados com esse comportamento de risco quando comparados às mulheres, visto que a despeito de representarem aproximadamente 25% dos motoristas, poucas foram surpreendidas dirigindo após consumo de álcool. Um estudo Israelense realizado com motoristas homens e mulheres indicou que os homens violam as leis de trânsito intencionalmente (exemplo: excesso de velocidade) enquanto as mulheres o fazem mais por engano, mostrando maior percepção aos possíveis perigos das violações de trânsito.

Em estudo realizado nas 27 capitais brasileiras 70% dos condutores entrevistados assumiram que beberam e dirigiram nos últimos 12 meses, sendo 93,4% homens. Outro estudo realizado com jovens tirando a primeira habilitação indicou que existe pouco conhecimento sobre a questão de álcool/direção , e as medidas preventivas para esse público são insuficientes, indicando que o Brasil deveria realizar mais campanhas educativas e informativas, sobre as leis atuais e as consequências legais de sua infração, além de ser necessário o aumento da fiscalização.

No presente estudo os reincidentes foram mais prevalentes no grupo com mais de 12 anos de habilitação e mais velhos (41 a 50 anos). Sugere-se como hipóteses para explicar tal achado que a formação desses condutores se deu com leis antigas, sem ações educativas, e com fatores culturais onde beber e dirigir era mais aceito pela sociedade, e que a maior independência financeira reduza o impacto das multas.

Como conclusão os autores indicam que uma vez conhecido o perfil dos reincidentes na infração de beber e dirigir, é possível estabelecer políticas educativas e preventivas específicas e direcionadas a esse público, mas recorda que o levantamento de infrações foi realizado em apenas um dos 27 estados brasileiros. Ainda, os índices de reincidência oficiais que foram encontrados estão abaixo das referências internacionais de outros estudos o que indica que provavelmente o Brasil não está fiscalizando adequadamente o cumprimento da lei. A sensação de impunidade estimula o comportamento inadequado de dirigir sob influência de álcool.

* DETRAN – Departamento estadual de trânsito, que faz parte do Sistema Nacional de Trânsito (SNT) e é responsável no estado pelas atividades de trânsito estabelecidas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e por normatização própria. São competências do Detran promover educação para o trânsito, planejar, coordenar, executar e controlar ações relacionadas à habilitação de condutores, documentação e serviços para veículos. Além disso, o órgão produz estatísticas de trânsito e gerencia a autuação e a arrecadação de multas. O objetivo do órgão é realizar todas essas atividades com qualidade, eficiência e transparência, contribuindo para a defesa da vida e da cidadania. O RS refere-se ao órgão do estado do Rio Grande do Sul.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool