Drogas: proibir ou legalizar?

Jornal de Hoje
Como tais substâncias podem causar problemas à saúde, o poder público deve investir em campanhas honestas de educação sobre drogas, que alertem para os reais riscos e danos associados ao uso, bem como combatam o estigma em relação aos usuários.

Recentemente, deparamo-nos com campanha publicitária, liderada por grupo denominado ‘Brasil Sem Drogas’, com propósito de rechaçar a legalização da maconha. Para tanto, utiliza frases interrogativas do tipo: “Você teria coragem de ser operado por um médico que acabou de fumar um baseado?” ou “Você entraria num avião cujo piloto acabou de fumar um bagulho?”, todas seguidas de resposta com uma mesma afirmação: “Se a maconha for legalizada, isso será considerado normal”. Ora, tal campanha ofende a inteligência das pessoas, pois em relação às bebidas alcoólicas, por exemplo, são permitidos a produção, a distribuição e o consumo. No entanto, nem por isso temos notícias de profissionais exercendo suas atividades laborais cotidianas em estado de embriaguez.

Sendo assim, a referida campanha de conteúdo mistificador e estigmatizante revela o propósito – ainda que não explicitamente assumido – de fazer com que as pessoas assumam postura (contrária à legalização), movidas pelo medo do desconhecido. A relação entre seres humanos e substâncias entorpecentes é antiquíssima, sendo associada a diferentes perspectivas culturais – religiosas, curativas, recreativas etc. – de modo que o problema não está na substância em si, mas no uso que se faz dela. Assim, o que deve ser desestimulado é o uso abusivo de substâncias que podem causar dependências, também no que se refere a algumas aparentemente inofensivas, como o sal e o açúcar, inclusive.

Como tais substâncias podem causar problemas à saúde, o poder público deve investir em campanhas honestas de educação sobre drogas, que alertem para os reais riscos e danos associados ao uso, bem como combatam o estigma em relação aos usuários. Além disso, deve atuar como instância reguladora/fiscalizadora dos processos de produção, distribuição, comercialização e consumo das mesmas. A mera proibição não resolve o problema, pelo simples fato de não conseguir inibir a demanda (associada ao desejo das pessoas). Por isso, a chamada “guerra às drogas” tem fracassado em todo o mundo e só contribui para mais violência, decorrente do fortalecimento do crime organizado (e as consequências nefastas a ele associadas). A propósito, o combate direto ao mesmo costuma atingir muito mais a população pobre – morta ou encarcerada em massa – basta ver o que expressam as estatísticas sobre a maior parte da população carcerária ou vítima de homicídios.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)