O estigma na dependência do uso de álcool

O consumo de álcool e de outras drogas faz parte da história da humanidade desde a antiguidade e seu uso está associado a situações recreativas, culturais e religiosas. Especialmente em relação às bebidas alcoólicas acredita-se que teve origem na Pré-História e, desde então, o contexto do uso sofreu diversas modificações; o que anteriormente associava-se a fins ritualísticos e medicamentosos, com o decorrer do tempo passou a ser ligado ao uso recreativo e ao prazer.

A relação individual com o álcool varia em função do contexto, padrão e intensidade do uso; enquanto que uns não desenvolvem problemas, para outros, o consumo pode ser altamente disfuncional, acarretando em uma série de prejuízos e complicações, como é o caso de abuso e dependência.

Diferente do que muitos acreditam, a dependência é uma doença crônica que deve ser reconhecida e tratada. O desconhecimento, associado a danos sociais que historicamente foram vinculados a esta doença contribuem para a estigmatização do problema, promovendo maior dificuldade para o indivíduo em relação a sua motivação para o tratamento e enfrentamento de problemas relacionados.

O que é estigma?

“Estigma” é uma construção social que representa uma “marca” atribuída ao indivíduo de maneira a ser identificado com base em alguma característica indesejável que possui, e a partir disto ser discriminado e desvalorizado pela sociedade. Dentre as condições mais estigmatizadas, estão os portadores de HIV e doenças mentais, como é o caso da esquizofrenia e o uso problemático de álcool e outras drogas.

O estigma na dependência química

Não pouco frequente o uso e a dependência de álcool e outras drogas é visto por grande parte população como um sinal de fraqueza de caráter ou falta de força de vontade, como se o indivíduo fosse capaz de mudar o seu comportamento e não o fizesse. No processo da formação do estigma social, tais características negativas atribuídas pela sociedade são internalizadas pelos estigmatizados, trazendo consequências em três esferas:

Social: inclui problemas familiares, exclusão social, desemprego e disparidades sociais;
Psicológica: presença de sentimentos de culpa, vergonha, raiva, angústia e baixa autoestima;
Saúde: agravamento de sua condição, recusa em buscar ajuda e baixa adesão ao tratamento.

Vale ressaltar que a família tanto pode atuar como fonte de estigma como auxiliar na prevenção e engajamento ao serviço de saúde. Desta forma, constitui-se como peça-chave no tratamento e deve ser estimulada a participar de todo o processo terapêutico.

O impacto do estigma para o tratamento

O estigma pode propiciar aumento da resistência dos profissionais em atender indivíduos com problemas com álcool e drogas. A complexidade do tratamento juntamente com a crença de que os pacientes não conseguirão cessar o consumo propiciam ao profissional uma tendência a afastamento e falta de motivação para desenvolver estratégias de prevenção e tratamento mais efetivas e adequadas.

Além disso, a percepção do estigma pelo usuário pode desencorajá-lo a buscar serviços de saúde na tentativa de evitar que ele seja visto como parte de um grupo estigmatizado, estando sujeitos ao agravamento dos seus problemas de saúde. Outra consequência direta é o sentimento de incapacidade de melhora, reforçando a crença de que não há razões para se recuperar.

Como lidar com o estigma?

Entre as estratégias para redução do estigma, destacam-se:

Educação: disseminar a informação de que a dependência é uma doença, e assim como outras doenças crônicas (diabetes e hipertensão, por exemplo) precisa de tratamento; eliminar o uso de jargões, como o termo “alcoólatra”;
Contato: promover o contato com usuários e dependentes ajuda a diminuir opiniões negativas a partir da troca de experiências, bem como da possibilidade de eliminar algumas crenças errôneas;
Grupos de autoajuda, como o A.A e o N.A: Contribuem para a construção de uma noção de identidade, autoestima e integração social;
Autonomia: promover estratégias que permitem trabalhar a promoção de autonomia para que os usuários se tornem ativos e socialmente funcionais no processo de recuperação.

Considerações finais

A moralização e os estereótipos associados ao uso de álcool e outras drogas influenciam negativamente a possibilidade e qualidade da prevenção e do tratamento para a dependência química. O transtorno por uso de álcool é uma questão complexa que envolve fatores genéticos e ambientais. Desta forma, é preciso maior conscientização de todos os atores envolvidos no problema, através de um trabalho em parceria entre profissional, usuário, família e comunidade, evitando que a responsabilidade caia apenas sobre uma das partes.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool