A gestão psicótica do canabidiol

Correio Braziliense
O CBD não tem efeitos psicoativos e não afeta a cognição.

Especificamente, tratar-se-á aqui de um composto abundante na Cannabis sativa: o canabidiol (CBD), que possui uma gama de possíveis efeitos terapêuticos, destacando-se as propriedades ansiolíticas e antipsicóticas.

Os efeitos ansiolíticos do CBD são, aparentemente, semelhantes àqueles dos medicamentos aprovados para tratar a ansiedade, embora suas doses efetivas não tenham sido claramente estabelecidas e os mecanismos subjacentes a esses efeitos não sejam totalmente compreendidos. O CBD não tem efeitos psicoativos e não afeta a cognição, possui um perfil de segurança adequado, boa tolerabilidade, resultados positivos em testes com seres humanos e amplo espectro de ações farmacológicas.

O CBD e outras substâncias da Cannabis são usados em vários países da Europa e nos Estados Unidos para tratamento de doenças como: Parkinson e esclerose múltipla, além do combate a sintomas da Aids e do câncer. O canabidiol sozinho não provoca dependência nem desencadeia efeitos psicoativos.

No Brasil, o pesquisador José Alexandre Crippa conseguiu autorização para trazer e estudar o CBD. Ele alega que é totalmente a favor do uso medicinal do canabidiol, mas absolutamente contra o uso da maconha da forma fumada.

Atualmente, as pessoas que precisam desse medicamento devem enviar para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): a. uma prescrição médica contendo obrigatoriamente nome do paciente e do medicamento, posologia, quantitativo necessário, tempo de tratamento, data, assinatura e carimbo do médico (com CRM); b. laudo médico contendo CID e nome da patologia, descrição do caso, justificativa para a utilização de medicamento não registrado no Brasil, em comparação com as alternativas terapêuticas já existentes registradas pela Anvisa; c. termo de responsabilidade assinado pelo médico e paciente ou responsável legal; d. formulário de solicitação de importação excepcional de medicamentos sujeitos a controle especial, preenchido e assinado pelo paciente ou responsável legal.

O passo seguinte é esperar pela boa vontade dos Correios e dos órgãos alfandegários, que possuem procedimentos que fogem a qualquer racionalidade, pois os medicamentos são remetidos do exterior em tempo compatível com a distância e logística de cada país, no entanto, ao chegarem ao Brasil sofrem da síndrome da gestão pouco direcionada ao cidadão.

Quando legalmente solicitado, o CBD demora mais de 30 dias para chegar às mãos dos necessitados. Muitas vezes, as famílias precisam retirar os produtos pessoalmente, mesmo fora de seus estados de origem, ou pagar a um despachante para fazer o desembaraço aduaneiro. Para receber os remédios em casa, são obrigados a pagar impostos que podem dobrar o valor desembolsado na aquisição do produto.

Urge reformular procedimentos para permitir a importação da substância sem os contratempos existentes. A reclassificação do canabidiol para substância controlada poderia facilitar a condução de pesquisas sobre o composto. Ainda que o canabidiol deixe de ser uma substância proibida, ele não será receitado e comercializado no Brasil imediatamente.

Antes dessa etapa, são exigidos estudos clínicos de grande escala que comprovem a eficácia e segurança do CBD. Ao auferir os resultados, a Anvisa estaria pronta para analisar a demanda. Faz-se necessário provar à agência que o produto é eficaz e não colocará a vida do paciente em risco, para depois a entidade decidir se concede o registro do produto. No Brasil, conforme informações da Anvisa, o prazo médio para a análise de registro de novos remédios é de 512 dias.

Pelo dito, quantas pessoas ainda terão que sofrer e até morrer pela burocracia extravagante existente e pela falta de sensibilidade das autoridades que atuam diretamente no caso? Sem comprometer os sistemas de saúde e aduaneiros/tributários, algo poderia ser realizado, em caráter de urgência e alternativo, para ajudar as famílias que dependem dessas importações.

Por fim, o descaso dos agentes públicos e os entraves administrativos são reais e devem ser combatidos. Se a sociedade e o mercado estão assim, fica claro que não é essa a sociedade que se quer, não é esse o mercado que se deseja. Inteligência, lógica, racionalidade e uma boa dose de espiritualidade podem fazer este país melhor.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)