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Cruzeiro do Sul
Em termos absolutos, o Brasil é o quarto país no mundo em mortes no trânsito, ficando atrás apenas da China, Índia e Nigéria

Uma ação promovida pelo Departamento Estadual de Trânsito em São Paulo (Detran-SP) com a colaboração das polícias Civil e Militar nas avenidas Dom Aguirre e Itavuvu, em Sorocaba, entre a noite do último sábado e a madrugada de domingo, aplicou 135 testes com o uso do etilômetro em motoristas que passavam por esses locais. Desse total de condutores fiscalizados, os policiais constataram que 13 deles dirigiam sob efeito do álcool. Em que pesem os bons propósitos do Programa Direção Segura, fiscalizar 135 motoristas em uma noite de Carnaval em apenas dois pontos da cidade, quando sabidamente há forte consumo de bebidas, é muito pouco. Mesmo juntando-se a esse número as blitze que a Polícia Militar e a Polícia Rodoviária realizam, o número de motoristas fiscalizados ainda é acanhado.

Sorocaba tem hoje uma frota entre automóveis, motos, utilitários, caminhões e ônibus de mais de 436 mil veículos. Mais alarmante que o diminuto número de veículos abordados em um período em que o uso de bebidas alcoólicas é intenso, é a proporção de motoristas alcoolizados flagrados pelos bafômetros. Em torno de 10% dos condutores de veículos fiscalizados nessa operação estavam sob efeito de álcool. Transpondo essa proporção para os carros em circulação naquele momento pelas vias de Sorocaba, tivemos milhares de motoristas alcoolizados dirigindo impunemente e colocando em risco a vida de outras pessoas.

Acidentes de trânsito têm ceifado milhares de vidas nos últimos anos. Em termos absolutos, o Brasil é o quarto país no mundo em mortes no trânsito, ficando atrás apenas da China, Índia e Nigéria, de acordo com levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas. Conforme o Datasus, responsável por estatísticas na área da saúde, morreram durante 2010 em acidentes de trânsito 42.844 pessoas no Brasil. Uma projeção realizada pelo Instituto Avante Brasil mostra que em 2014 morreram 48.349 pessoas. Levantamento realizado pela Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas (Abead), que estuda o assunto, mostra que em 61% dos acidentes automobilísticos registrados no Brasil o condutor havia ingerido bebida alcoólica. Entre os casos fatais, a proporção sobe para 75%.

Para se ter uma ideia da dimensão desses números, basta lembrar que, de 2001 a 2014, a chamada segunda guerra do Afeganistão ceifou a vida de 1.600 militares norte-americanos e provocou um impacto tão negativo na opinião pública daquele país que o presidente Barack Obama decidiu retirar suas tropas da região.

O Brasil tem uma legislação de trânsito avançada. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) adotado em 1997 é suficientemente rigoroso. A chamada “nova Lei Seca” (lei nº 23321), que entrou em vigor em dezembro de 2012, alterou significativamente o artigo 306 do CTB. O condutor, desde a lei de 1997, não podia ter concentração igual ou superior a seis decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligramas de álcool por litro de ar alveolar. Muitos motoristas, entretanto, se recusam a soprar o bafômetro. Com as alterações na legislação, agora o estado de embriaguez pode ser comprovado por diversos meios, como exames de alcoolemia, vídeos, testemunhas ou outras provas admitidas pelo Judiciário. Constatada a presença de álcool acima desses índices, o infrator, além de pagar multa no valor de R$ 1.915,40, responder a processo administrativo junto ao Detran e ter suspenso seu direito a dirigir por 12 meses, responderá a processo na Justiça por crime de trânsito e, se condenado, poderá cumprir de seis meses a três anos de prisão.

Campanhas educativas sobre os perigos do uso de bebidas alcoólicas pelos motoristas são importantes e há muitos exemplos positivos nesse sentido, mas o que realmente diminuirá a trágica estatística dos acidentes de trânsito é a fiscalização efetiva sobre os transgressores. Cidadãos e também as autoridades precisam estar conscientes de que o álcool é a grande causa de morte no trânsito e, num primeiro momento, policiamento e fiscalização forte é o que pode render melhores resultados.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)