Drogas sintéticas são consumidas até na escola

Diário de Pernambuco
MDMA, ecstasy e LSD são cada vez mais populares entre adolescentes de classe média.

A primeira experiência de Gustavo, (nome fictício), 16 anos, com o LSD foi em uma aula. Depois de colocar o produto sob a língua, ele sentou nos fundos da sala, pôs uma música no celular e iniciou sua “viagem”. Conta que passou a aula desejando dançar entre as bancas escolares do colégio particular onde estuda, no Grande Recife. “Fiquei completamente fora daquele ambiente”, lembra.

Apesar de a maconha e do álcool ainda serem as drogas mais consumidas entre os adolescentes, sintéticos como o LSD (também chamado ácido ou doce), o MDMA e o ecstasy (conhecido como bala) estão na moda. A falta de informação especializada sobre as substâncias e a pouca idade do usuário agravam os riscos à saúde, avaliam estudiosos.

O MDMA, vendido em forma de pó, pode ser colocado sob a língua ou dissolvido na água. “O efeito é diferente do LSD. A gente sente mais empolgação física”, relata Érica (nome fictício), 15 anos, que já usou o produto em raves. Fernando Beserra, professor de psicologia do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro e membro do Núcleo e Estudos Intedisciplinares sobre Psicoativos, explica que o MDMA é usado em psicoterapia junto a ex-combatentes de guerra nos Estados Unidos, e, nas ruas, ganhou o nome de ecstasy ou bala. Mas, diferentemente do MDMA, o ecstasy é vendido em comprimido.

Um dos perigos, alerta Beserra, é o usuário comprar nas ruas metanfetamina no lugar do ecstasy. A substância tem potencial de dependência maior, pois é estimulante do sistema nervoso central. “Outro risco é a falta de conhecimento sobre o limite de consumo do ecstasy e do MDMA para uma overdose”, destaca.

Quem chama atenção para o maior consumo de LSD entre estudantes é o psicólogo Carlos Brito, do curso de psicologia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). “Tenho visto muitos relatos, inclusive no consultório, de jovens de classe média e alta. A moda vem aumentando de um ano para cá. Eles levam para a escola ou para as festas. Por ter um efeito prolongado, o LSD tem impacto maior que outras drogas”, alerta.

O LSD é apresentado em cartelinhas que mais parecem selos ou pequenos pontos. Apesar do preço relativamente alto – um microponto custa em média R$ 50 – a compra é viável porque os estudantes juntam-se em grupos de quatro para dividir a droga. Um dos efeitos é o desejo maior de interagir com as pessoas. “Eles contam que se a festa é às 18h, usam o produto às 14h. Dessa forma, chegam ao auge do ‘brilho’, como definem. Quando voltarem a ter contato com os pais ou responsáveis, estarão sem apresentar qualquer efeito do uso”, destaca. O mesmo vale para o ecstasy e o MDMA.

Tráfico mais fácil

Classificadas como “drogas limpas” por não ter cheiro e não exigirem um ritual, como o preparo de um cigarro de maconha, os sintéticos também ganham a preferência dos adolescentes por não levantar tantas suspeitas.

Segundo a Polícia Federal (PF), essas drogas são mais difíceis de serem flagradas pela forma de apresentação. “O LSD, por exemplo, é vendido por pessoas de maior poder aquisitivo que viajam e trazem da Europa e da Ásia. A maior apreensão da droga em Pernambuco aconteceu em 2012, quando foram recolhidos 12 mil microsselos de LSD. O material estava com dois recifenses de nível superior”, lembra Giovani Santoro, da PF.

“O adolescente acha legal ficar fora de si. Qualquer coisa que altera a consciência chama a atenção. E esses produtos têm seu glamour por serem drogas ilícitas”, analisa Zila Sanchez, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid).

O LSD, alertam especialistas, é o mais perigoso para o adolescente. Apesar de não matar por intoxicação, é o que mais altera o comportamento. “Você não voa e pensa que voa. Você não nada e pensa que sabe nadar”, alerta Zila Sanchez.

Acolhimento do adolescente na própria escola e reflexões com os alunos sobre o tema, além de aplicação de políticas públicas são alguns caminhos para o combate ao uso e prevenção.

“Proibir não resolve. O uso de drogas sempre existiu, inclusive ligado à religiosidade. Hoje o uso é mais ligado ao lazer, para o adolescente ficar próximo dos amigos. É preciso criar práticas que reduzam os riscos do uso da droga. Kits de testagem, por exemplo, são aplicados em raves por equipes de redutores de danos de ONGs, na Bahia”, informa Fernando Beserra, professor de psicologia do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)