Entrevista com o educador físico Eduardo Cesar – Consumo de álcool e atividades físicas

Eduardo Luiz da Rocha Cesar é bacharel em Educação Física pela UNESP, especialista em Dependência Química pelo GREA-IPq-FMUSP e coordenador da MOVIMENTE – Núcleo de Reabilitação Física em Saúde Mental.

1. De que forma o consumo de álcool pode influenciar o desempenho dos praticantes de atividades físicas?

O Álcool é a droga mais consumida globalmente de forma recreativa e seu consumo, muitas vezes feito em grande volume, está profundamente enraizada em muitos aspectos da sociedade ocidental.

Na verdade, os atletas (profissionais e/ou amadores) NÃO estão isentos da influência que o álcool tem na sociedade. Assim, o recomendado pelo American College of Sports Medicine é que os atletas evitem o consumo de álcool para impedir o impacto negativo que esta droga possa ter sobre a recuperação e desempenho esportivo. Dentre elas:

•A ingestão aguda de álcool pode produzir efeito deletério em ampla variedade de habilidades psicomotoras, tais como tempo de reação, coordenação mão-olho, tempo de reação, equilíbrio e coordenação ampla.
•O consumo de álcool pode impedir a regulação da temperatura corporal durante exercícios prolongados em ambientes frios ou com temperaturas altas e esta condição provavelmente acarretará na diminuição da performance.
•O efeito agudo da ingestão de álcool pode ainda reduzir a força muscular, potência e resistência muscular localizada, velocidade e “endurance” cardiovascular.

2. Os efeitos do álcool no organismo podem ser minimizados ao se realizar exercício físico logo após o consumo de bebidas alcoólicas?

Há evidências que sim. Neste caso, logo após a ingestão do álcool o exercício físico atenuaria os efeitos da substância (estudos mostraram que as mitocôndrias, que são as unidades celulares responsáveis pela produção de energia, aumentaram sua capacidade de metabolizar o álcool em pessoas que praticavam exercícios). Além disso, a atividade física parece reduzir os efeitos oxidantes causados pelo álcool.

3 E na ordem inversa, quando bebidas alcoólicas são consumidas após a prática de atividades físicas, existe algum impacto (positivo ou negativo)?

Sim! Este impacto é negativo, sobretudo, em relação ao processo de recuperação física.

O consumo de álcool agudo, após uma sessão de treinamento físico pode alterar negativamente a função imunoendocrina e a síntese proteica responsável pela recuperação da lesão do músculo esquelético pós-exercício. Outros fatores relacionados à recuperação física, como a reidratação e a ressíntese de glicogênio, também poderão ser afetados dependendo da quantidade de álcool que for ingerida. O correto é sempre que possível, beber água, sucos, repositores hidroeletrolíticos antes, durante e ao término de cada novo estímulo com exercícios.

4 Quais os perigos da combinação entre álcool e sedentarismo?

Verdadeiramente, esta combinação é impactante para a deterioração do organismo humano. Por exemplo, o consumo excessivo de álcool pode promover alterações no sistema musculoesquelético, fígado, coração e cérebro, os quais estão fortemente relacionados com incapacidades físicas e mentais, podendo levar o indivíduo a morte.

Semelhantemente, o sedentarismo (definido como a falta ou a grande diminuição da atividade física), provoca literalmente o desuso dos sistemas funcionais, caracterizando, no caso dos músculos esqueléticos, um fenômeno associado à atrofia das fibras musculares, à perda da flexibilidade, além do comprometimento funcional de vários órgãos. A hipertensão arterial, o diabetes, a obesidade, ansiedade, o aumento do colesterol, o infarto do miocárdio são alguns dos exemplos das doenças às quais o indivíduo sedentário se expõe. O sedentarismo, na maioria das vezes está associado direta ou indiretamente às causas ou ao agravamento da grande maioria das doenças.

Portanto, esforços contínuos devem ser feitos para educar atletas (amadores e profissionais), profissionais da saúde, treinadores e o público em geral sobre os efeitos agudos e crônicos da ingestão do álcool na performance esportiva, assim como, no alto potencial de problemas para a saúde integral dos indivíduos que são sedentários e ainda fazem o uso do álcool de forma abusiva.

5. Hoje sabe-se que é possível aliar atividades físicas ao tratamento da dependência alcoólica. Como esta modalidade é implementada na prática e quais seus benefícios?

Como profissional de educação física e especialista em dependência química, tenho observado ao longo de 12 anos de trabalho com reabilitação física na área das Dependências Químicas, que tanto os estudos científicos como a atuação deste profissional no universo da psiquiatria ainda são recentes.

Por este motivo, ainda não existe um protocolo que seja “padrão ouro” para a reabilitação física no tratamento da dependência do álcool. Mas, atualmente, há uma tendência de se trabalhar a melhoria da aptidão física para este tipo de paciente.

Na prática isto se dá, primeiramente, através de uma anamnese feita com o paciente sobre o lastro de exercício físico realizado no passado e sua motivação para iniciar um programa especifico de treinamento físico. Logo depois, realiza-se uma avaliação antropométrica computadorizada, com o objetivo de avaliar o dano físico causado pela dependência do álcool e que muitas vezes está associada a um estilo de vida sedentário.

Tendo os dados sobre a anamnese e a antropometria do paciente, inicia-se a elaboração e montagem do protocolo de treinamento físico que DEVE ser especifico para cada paciente, “não há receita de bolo”.

Exclusivamente, cada paciente percebe o dano físico causado por anos de uso do álcool de maneira diferente e por este motivo, o seu processo de melhora relacionado as capacidades físicas (resistência aeróbia, força muscular, flexibilidade, equilíbrio e coordenação motora) durante todo o período de treinamento também se dará de forma individualizada.

Logo, os benefícios relacionados a um programa de reabilitação física (específico) no tratamento do alcoolismo mostra-se complementar em relação somente aos tratamentos habituais (medicamentoso e psicoterápico), principalmente devido a oportunidade de se promover a saúde integral do paciente.

Portanto, Alcoolismo é uma doença complexa, multifatorial e que a convicção de que só medicamentos e psicoterapia podem resolver o problema é inconsistente, deste modo, o exercício físico atuará de maneira adjuvante no tratamento desta doença.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool