Que tal ganhar R$ 2,5 mil para largar o cigarro?

Época
Por que uma rede de farmácias decidiu dar prêmios em dinheiro aos funcionários que pararem de fumar.

Não conheço outro produto capaz de matar metade de seus consumidores habituais e, ainda assim, continuar no mercado sem desencadear uma onda de protestos. Essa é uma proeza exclusiva do cigarro.

Apesar de provocar seis milhões de óbitos anualmente no mundo, nada tira do tabaco o posto de inequívoco sucesso comercial. Quem paga a conta do vício (além do próprio consumidor) são os governos, os empregadores e os planos de saúde. Diante do aumento dos custos do tratamento de doenças relacionadas ao fumo, resta a eles investir em estratégias criativas.

A mais recente é oferecer incentivos financeiros para quem consegue largar o cigarro. A ideia parece boa, mas epidemiologistas e empresas querem saber se o investimento compensa. O maior estudo já realizado sobre o tema, publicado há duas semanas pela revista científica The New England Journal of Medicine, trouxe algumas respostas.

Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia testaram o método em 2,5 mil voluntários nos Estados Unidos. Eles eram funcionários da rede de farmácias CVS ou familiares e amigos deles. Todos tinham mais de 18 anos e fumavam pelo menos cinco cigarros ao dia.

Um dos grupos aceitou o desafio de abandonar o vício em troca de um prêmio de US$ 800. Parte dos voluntários foi convidada a tirar dinheiro do próprio bolso. Cada um faria um depósito de US$ 150 numa conta do programa. Depois de seis meses, o dinheiro seria devolvido aos que tivessem conseguido parar de fumar – junto com um prêmio de mais US$ 650.

Além dessas duas estratégias, todos os participantes foram incluídos num programa tradicional para abandono do fumo – baseado em palestras e recursos paliativos como os adesivos de nicotina.

O resultado surpreendeu a equipe. O risco de perder dinheiro mostrou-se mais estimulante que o dinheiro caído do céu. O índice de abstinência após seis meses entre os que receberam o prêmio foi de apenas 17%. Bem inferior a dos que correram o risco de perder dinheiro (50%). Nesse último grupo, a chance de se manter longe do vício foi cinco vezes mais elevada do que entre os voluntários submetidos apenas ao aconselhamento tradicional.

Pesquisas como essa são importantes tanto para os governos como para as empresas. Um funcionário fumante custa ao empregador US$ 5,8 mil a mais por ano do que um não-fumante, segundo um estudo da Universidade do Estado de Ohio.

Segundo os pesquisadores, pagar um incentivo de US$ 800 por funcionário abstinente sairia mais barato para as empresas do que arcar com os custos provocados pelas doenças dos fumantes. A rede de farmácias CVS, que emprega 200 mil pessoas, se convenceu. Ela pretende lançar um programa de incentivos financeiros antifumo em junho.

Nada garante que o incentivo seja capaz de garantir o abandono definitivo do vício. Metade dos fumantes que estavam livres do cigarro seis meses depois do inicio do estudo não conseguiu comprovar essa condição um ano depois.

Quem já tentou parar de fumar sabe o tamanho do esforço necessário para vencer uma das mais poderosas formas de dependência química. Um terço das pessoas que experimentam nicotina se torna dependente. Isso ocorre com apenas um quarto dos que têm contato com a heroína.

O fumante chega a consumir cigarros em intervalos de 15 minutos durante o dia e à noite. Nem o crack produz tal comportamento. O sucesso do estímulo financeiro depende de características individuais. O que é estimulante para uns pode não ter o mesmo poder para outros, como 14 personalidades revelaram nesta reportagem de ÉPOCA sobre estratégias de quem conseguiu parar de fumar.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)