Conheça a realidade do 1º país da América do Sul a legalizar a maconha

G1
O Uruguai regulamentou a maconha há quase dois anos. No Brasil, STF discute descriminalização do porte para consumo.
O Matías e os amigos fumam. O Juan e a Laura distribuem e fumam. Nenhum deles está cometendo um crime. No Uruguai, pode.

A viagem pelo país menor que o Rio Grande do Sul, com 3,2 milhões de habitantes, começa no município de Maldonado, bem perto de um balneário muito conhecido. Do lado de fora, uma casa comum em um subúrbio de classe média de Punta del Leste. Mas lá dentro, não é exatamente uma casa como qualquer outra. O local é um clube de maconha.

A história da maconha no Uruguai tem uma data chave: 10 de dezembro 2013. Nesse dia, por uma votação apertada, de 16 votos contra 13, o Senado aprovou a lei regulamentando a cannabis, que é o nome científico da planta. A iniciativa foi do governo do então presidente José Mujica. Ele explicou assim: “O que a gente vinha fazendo em matéria de repressão às drogas não deu resultado. Não se pode tentar mudar fazendo sempre a mesma coisa”.

O sociólogo Julio Calzada comandou o processo: “O objetivo central era tirar poder do narcotráfico. No Uruguai, o tráfico fatura cerca de U$ 40 milhões e 90% dos usuários usam praticamente só a maconha”.

A lei determina controle total do Estado. Até o preço, cerca de R$ 4 por grama, é fixado pelo governo. “Se o nosso objetivo é competir com o mercado negro, então a maconha não pode passar de certo preço”, diz Julio Calzada.

Estes são os três principais pontos da lei: para quem tem mais de 18 anos e se cadastrar, ela libera o plantio. São até seis pés que estejam florescendo. Permite a criação de clubes, que podem plantar até 99 pés. São no máximo 45 sócios e cada um pode receber até 40 gramas por mês. Libera a venda em farmácias, com receita médica, de maconha plantada por empresas escolhidas em licitação. Essa última etapa ainda não foi posta em prática.

Entre cultivadores registrados e sócios de clubes, são cerca de três mil pessoas. Já nas ruas, não é comum ver gente consumindo, apesar de a lei permitir a posse de até 40 gramas.

Entrar para um clube de maconha não é barato: mais de R$ 1,5 mil de matrícula, mais uma mensalidade de cerca de R$ 300.

Mas será que toda essa tolerância com a maconha em um país vizinho pode causar problemas no Brasil? Na fronteira com o Chuí, extremo sul brasileiro, um clube da cannabis fica dentro de uma galeria. Na loja, se encontra plantas de cannabis. Se fosse 50 metros para o lado do Brasil, daria cadeia. Do lado do Uruguai, não tem problema, está liberado.

Os brasileiros também aparecem querendo comprar alguma coisinha a mais. O vendedor uruguaio até aprendeu a falar português. “Eles acham que aqui se vende maconha e não se dão conta de que isso é um mostruário. Não vende”, diz o vendedor Joaquín Cabellero.

Turista não pode comprar maconha nem nas lojas, nem em lugar nenhum. A lei só liberou plantar e ser sócio de clubes para uruguaios e estrangeiros com residência permanente. “Nós tentamos ao máximo impedir o turismo da maconha, porque temos uma fronteira flexível e não queríamos causar problemas para o Brasil ou para a Argentina”, destaca Julio Calzada.

Na fronteira aberta do Chuí, o comandante da Brigada Militar está tranquilo. “Esse fato não foi preponderante para que aumentasse o uso da droga do lado do Brasil”, afirma Nairo Ferreira Costa.

Dos dois lados, o problema mais sério é o crack, uma droga mais devastadora.

Mas o médico brasileiro Alexandre Crippa alerta: não é porque a maconha é menos perigosa que ela não tem seus riscos. “A maconha não é uma substância inócua. Pessoas com transtornos psiquiátricos, jovens até um período de maturação cerebral, em torno de 24, 25 anos, têm uma propensão muito maior de desenvolver no futuro problemas físicos, problemas de transtornos do humor”, diz o psiquiatra.

Segundo o governo, 9,3% da população admitem ter usado maconha nos últimos 12 meses. Em 2011, antes da lei, eram 8,3%. Apesar da subida, é o menor aumento dos últimos 14 anos. “Começamos esse processo há mais de um ano e o mundo não acabou. Ainda temos muito a aprender e temos que ser, acima de tudo, sensatos”, destaca Julio Calzada.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)