Padrões de consumo de álcool e o risco para desenvolvimento de câncer

O consumo excessivo de álcool já foi anteriormente relacionado, em outras pesquisas científicas, como fator implicado em maior risco de desenvolvimento de alguns tipos de câncer (cânceres relacionados ao álcool, traduzido do inglês “alcohol-related cancers”), como de cavidade oral, faringe, laringe, fígado, esôfago, mama e colorretal. Em geral, quanto maior a quantidade de álcool ingerida, maior é o risco. Já a relação entre tal risco e o consumo moderado de álcool (muitas vezes definido como uma dose* diária para mulheres e duas para homens) ainda não é muito claro, como ocorre nas doenças cardíacas e diabetes, nas quais o consumo leve a moderado já demonstrou ter efeito protetor, enquanto o beber mais intenso pode ter relação inversa.

Para elucidar essa questão, estudo americano avaliou associações entre risco de câncer e níveis de consumo de álcool moderado e excessivo, considerando diferenças entre homens e mulheres, e entre indivíduos que nunca fumaram, e quem fuma ou fumou. Foram analisados dados de dois grandes grupos de profissionais de saúde, com mais de 88 mil mulheres e 47 mil homens que foram acompanhados por mais de 30 anos.

Em linhas gerais, com o consumo moderado de álcool foi encontrada uma tendência de discreto aumento na probabilidade do surgimento de câncer, que ocorre com níveis de consumo menores entre mulheres que entre homens. Além disso, o estudo corrobora que o tabagismo atua como fator de risco bem mais forte que o consumo de álcool no que se refere ao surgimento de câncer.

O consumidor mais pesado de álcool (consumo total equivalente ao que seria 30 g ou mais por dia – cerca de 3 doses ou mais) apresentou aumento no risco total de câncer, sendo mais expressivo entre quem já fumou (ou fuma) que entre não fumantes (que nunca fumaram). Quando homens e mulheres não fumantes foram vistos separadamente, não houve aumento do risco entre homens bebedores moderados; entretanto, o consumo diário de álcool entre mulheres, mesmo que moderado, foi associado a maior risco de câncer, principalmente de mama.

Os autores chamam atenção para influência de diferenças genéticas, isto é, famílias que possuem indivíduos com câncer apresentam risco mais elevado para o desenvolvimento da doença quando há consumo de álcool. Por exemplo, o risco de câncer colorretal fica aumentado com o uso de álcool em famílias com história familiar positiva para a doença, e dessa forma, a predisposição genética deve ser considerada ao optar por restrição ou não ao consumo de álcool.

Como os resultados foram semelhantes para diferentes tipos de bebida (cerveja, vinho e destilados), os autores concluíram que é o próprio etanol presente na bebida e não outros componentes o responsável pela associação com o câncer. É provável que o produto de metabolização do etanol (acetaldeído) seja o principal responsável, mas é possível que o próprio etanol também tenha algum tipo de efeito diretamente carcinogênico (veja mais em http://www.cisa.org.br/artigo/7/uso-alcool-desenvolvimento-cancer-em-individuos.php). Da mesma forma, os resultados de análises estatísticas não demonstram haver influência no padrão de consumo, isto é, não houve diferença entre os indivíduos que concentram ou não seu consumo total em menos ocasiões, com ingestão de maior número de doses (beber pesado episódico, veja mais em http://cisa.org.br/artigo/4405/padroes-consumo-alcool.php), tendo sido encontrado como fator associado a quantidade média total consumida.

Como conclusão, os autores destacam que o consumo moderado está associado minimamente com risco aumentado de câncer em geral, mas para as mulheres, mesmo as que nunca fumaram, o risco para câncer do tipo relacionado com o álcool, especialmente de mama, aumenta com a ingestão diária de álcool a partir de quantidade equivalente a uma dose de bebida alcoólica.

*A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que uma unidade de bebida ou dose padrão contém aproximadamente de 10 g a 12 g de álcool puro, o equivalente a uma lata de cerveja (330 ml) ou uma dose de destilados (30 ml) ou ainda a uma taça de vinho (100 ml).