Intervenções direcionadas à personalidade atrasam o desenvolvimento do comportamento de beber e de ´beber pesado episódico` entre adolescentes

Quanto mais precoce o início do uso e abuso de álcool, mais vulnerável o indivíduo está para engajar em outros comportamentos de risco. Especialmente entre os adolescentes, traços de personalidade têm sido identificados como fatores preditores ao uso e abuso de álcool. tendo sido delineada uma relação entre o comportamento de procura de novas sensações (“sensation seeking”) com o “beber pesado episódico” e entre a “sensibilidade à ansiedade” e “predisposição à depressão” com o comportamento de beber para lidar com afetos negativos.

Assim, de forma geral, o presente estudo teve o propósito de explorar se, entre adolescentes, a intervenção precoce sobre personalidades de risco poderia atrasar o desenvolvimento de comportamentos de beber e especificamente o comportamento de “beber pesado episódico”.

Foram selecionados 368 adolescentes, com idade média de 14 anos, que pontuaram mais que a média dos alunos de sua escola em, pelo menos, uma das sub-escalas do instrumento “Substance Use Risk Profile Scale” (SURPS), em referência a personalidades de Pensamento Negativo (NT), Sensibilidade à Ansiedade (AS), Impulsividade (IMP) e Busca de Sensações (SS). Esses adolescentes foram divididos entre os grupos de intervenção (personalidade-específica) e o grupo controle (sem intervenção). Quanto ao consumo de álcool, avaliou-se a quantidade e a frequência desse uso, assim como a prevalência do comportamento de “beber pesado episódico”. Todas as medidas foram administradas em três momentos: (a) baseline, (b) 6 meses e (c) 12 meses após a intervenção. A intervenção consistiu em duas sessões de 90 minutos cada. O grupo controle não recebeu nenhuma intervenção a mais, a não ser sessões-padrão de educação sobre drogas, também recebidas pelo grupo de intervenção.

Comparando-se ambos os grupos (controle e intervenção) verificou-se que a intervenção atrasou o desenvolvimento natural do comportamento de beber, “beber pesado episódico” e o escalonamento natural do padrão de uso (combinação dos indicadores de quantidade e frequência), em 6 meses de avaliação, entre adolescentes de personalidade de alto risco. Além disso, a intervenção teve impacto na redução da relação de SS ao uso de álcool, não apresentando impacto significante sobre a relação dos demais traços de personalidade com o comportamento de beber (AS, NT e IMP). Com relação ao “beber pesado episódico”, com a intervenção, os bebedores com personalidade SS eram de 45% e 50% menos prováveis de beber em tal padrão nos 6 meses e 12 meses do seguimento do estudo, quando comparados a sujeitos de mesmo perfil do grupo controle.

Assim, conforme os autores, uma intervenção que possa atrasar o aumento natural do comportamento de beber (entre bebedores), pode ser um método para reverter o risco associado com o início precoce do uso de álcool, possivelmente por atrasar o início do “beber pesado episódico” até um período crítico do neurodesenvolvimento quando as funções executivas e a resposta de recompensa amadurecem. Assim, a intervenção focada ao tipo de personalidade pode ser melhor que abordagens alternativas em reduzir e prevenir o abuso de álcool. Além disso, outra vantagem dessas estratégias é o fato de atuam sobre os precursores do abuso de álcool, ao invés de focar sobre comportamento problemático.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool