A (des)Qualidade das Internações


Na última década, por conta do advento do crack, ainda nos anos 90, surgiu uma enxurrada de Clínicas e Comunidades Terapêuticas por todo Brasil oferecendo tratamento a Dependentes Químicos em estado crônico. A questão que abordamos neste artigo é justamente a qualidade e a eficiência destas internações e quiçá dos tratamentos por elas oferecidos.

Nos anos 70, em Campinas, o Padre Haroldo Hanz trouxe da Europa um modelo de internação que vinha funcionando na Alemanha para dependentes de heroína. Um tratamento baseado na tríade – Trabalho, Oração, Desintoxicação. Aos poucos foram agregados os Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos e outras filosofias. Este modelo foi o único por muito tempo e teve, no início de suas atividades, uma alta taxa de aderência. Lembrando que em meados dos anos 70 e 80, a droga que mais levava dependentes às clínicas e comunidades era o álcool, em raros casos a cocaína.

Cabe lembrar, que Nelson Giovanelli (evangelista voluntário) e Frei Hans Stapel (pároco de Guaratinguetá), ainda nos anos 80, fundaram a Fazenda da Esperança, que funcionava em moldes semelhantes à Fazenda de Campinas. Foi aí que tudo realmente começou.

Daí para frente, com um modelo pronto e funcional, muitas pessoas seguiram o exemplo e montaram diversas Comunidades Brasil a fora. Espiritualidade, Trabalho e Terapias alternativas eram, a princípio, a “fórmula mágica” da Recuperação. O que não se podia prever ou contar é que o número de dependentes carentes de internação fosse subir desproporcionalmente ao número de vagas oferecidas em Comunidades. Nisto, fundou-se a FEBRACT, Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas e, com ela, surgiram parâmetros para que a qualidade das internações fosse de alguma forma equilibrada e equitativa. Paralelamente, surgiu a FEAE, Federação Brasileira de Amor Exigente, dando às famílias dos dependentes internados, um modelo de suporte também trazido da Europa onde havia logrado muito êxito.

Entretanto com a onda do crack e com o crescimento latente de dependentes em cocaína – duas drogas cujo tratamento é muito mais delicado e trabalhoso – foram surgindo diversas propostas distantes daquilo que a FEBRACT julgava correto, e, com isso, instalaram-se muitas clínicas e comunidades ditas fantasmas, irregulares ou clandestinas. Muitas sequer sem autorização da ANVISA e do Ministério da Saúde.

Com a dificuldade de tratar os dependentes destas drogas químicas, falta de preparo entre outros fatores, situações de violência física, moral e espiritual começaram a ser vislumbradas numa grande fração de instituições. Espancamentos, cárceres, humilhações tornaram-se “lugar comum” na grande maioria destas comunidades. Na realidade, o dependente se internava buscando tratamento e encontrava agruras para manter-se limpo e em tratamento. E não se resume apenas nisso. Alimentações pouco nutritivas (muitas comunidades oferecem sopas com pé de frango todos os dias, salsicha de baixa qualidade no almoço, ´por exemplo), falta de atendimento médico, psicológico e terapêutico e acomodações extremamente desconfortáveis engrossam o caldo de desventuras encontradas na grande maioria das clínicas e comunidades espalhadas pelos 27 estados brasileiros.

Muitas destas comunidades foram denunciadas e, de certa forma, estes atos acenderam uma luz junto ao Poder Público, à ANVISA, OnG’s e lideranças religiosas. Nos primeiros anos da década de 2000, mais de mil comunidades foram fechadas e seus responsáveis foram punidos na forma da lei.

Hoje, 2016, nem só os padrões FEBRACT são levados em conta. É sabido que as drogas químicas e até mesmo o álcool e a maconha causam o que a medicina chama de co-morbidades, ou seja, transtornos mentais gerados pelo uso abusivo de drogas. Para tanto, o Ministério da Saúde e a ANVISA criaram uma série de prerrogativas para o bom funcionamento de clínicas e comunidades especializadas em dependência química. Exige-se a presença de Auxiliares de Enfermagem, Psicólogos, Terapeutas Ocupacionais, Psiquiatras e Conselheiros da Dependência Química. Exige-se um número mínimo de refeições diárias – 4 – todas elas acompanhadas por nutricionistas e, recentemente, estuda-se a possibilidade de tornar laicas (independentes de religiões) as formas de tratamento oferecidas. Isto porque, ainda há um número excessivo de tratamentos religiosos que apelam exclusivamente para a fé como forma de “cura”.

Orientamos então, que em caso de necessidade de internação, todos estes quesitos sejam analisados: Registros na ANVISA em dia, possível filiação à FEBRACT, profissionais oferecidos e condições de acomodação. Se a comunidade tentar desviar o assunto, justificando qualquer uma destas premissas, tenha a certeza de que não se trata de um tratamento qualificado.

Aposte em tratamento! Não interne seu ente querido em situação de ímpeto ou imediatismo. Você pode colocar o dependente em uma situação de risco. Há tratamento e a escolha quem faz é você. Saiba escolher!
Autor: Prof. Esp. Rodrigo Augusto Fiedler (Filósofo e Educador)