´O uso de maconha dobra o risco de acidentes graves`, diz pesquisadora


Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

A bioquímica americana Marilyn Huestis foi uma das principais convidadas da 21ª Conferência do Conselho Internacional sobre Álcool, Drogas e Segurança no Trânsito
Por: Larissa Roso

Com quase três décadas de estudo sobre a maconha, a bioquímica americana Marilyn Huestis foi uma das principais convidadas da 21ª Conferência do Conselho Internacional sobre Álcool, Drogas e Segurança no Trânsito, realizada em outubro, em Gramado. Doutora em Toxicologia e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, ela atuou por mais de 20 anos no National Institute on Drug Abuse, órgão do governo dos EUA voltado à pesquisa. Marilyn veio ao Estado falar sobre a experiência americana com a maconha. Nesta entrevista, ela destaca o perigo do consumo precoce e os danos possíveis.

— As pessoas usam maconha pela euforia e pelo relaxamento que provoca, mas tem muitas outras alterações envolvidas. Quando você fuma, prejudica as funções normais do cérebro. E quando você fuma muito, muda o cérebro — alerta a pesquisadora.

Confira, a seguir, os principais trechos da conversa:

Álcool e maconha: combinação perigosa

“Temos o simulador de direção mais avançado do mundo, no Estado de Iowa, construído pelo governo americano. É uma instalação incrível, muito realista. Testamos a maconha com e sem doses de álcool. Sabemos há muito tempo que o álcool prejudica muito a direção. Ainda é a droga lícita número 1, mas a maconha é a droga ilícita mais comum relacionada a ferimentos graves e óbitos no trânsito. Quando a pessoa está embriagada, tende a pensar que não está incapacitada para dirigir e acelera. Com a maconha é diferente: a pessoa geralmente sabe que está com os sentidos prejudicados e que não está apta a conduzir um veículo, então, dirige mais devagar e mantém distância maior em relação ao carro da frente. Podemos ter grandes problemas quando as pessoas dirigem muito lentamente. Nós conhecíamos essas interações. O que mostramos agora é que a concentração no sangue de THC, o principal composto psicoativo da maconha, produz o mesmo efeito que uma dose pequena de álcool. É perigoso. O risco de um acidente com ferimentos graves ou morte é duplicado. As pessoas podem dizer: ´E daí que dobra? O risco do álcool é muito maior`. É verdade, o álcool pode fazer muito mais do que isso, mas o dobro de risco em se tratando da droga da qual mais se abusa é um grande problema. Também mostramos que, quando o álcool e a maconha são combinados, o pico do álcool ocorre mais tarde. Muita gente sabe que pode tomar apenas duas cervejas e que tem de esperar algumas horas até poder dirigir. A maconha muda tudo, e as pessoas precisam saber disso. Uma das combinações mais comuns, álcool e maconha, é também uma das piores.”

A importância da testagem

“Nos Estados Unidos, até 2007, quando se avaliava embriaguez ao volante, observava-se apenas a presença de álcool. Sabemos desde os anos 1970 que a embriaguez ao volante vem decaindo. Tem sido feito um bom trabalho, com boas iniciativas para reduzir o consumo de bebida alcoólica. Mas sabemos que o consumo de drogas associado à direção subiu. Quando as autoridades finalmente passaram a coletar sangue e fluido oral para verificar a presença de drogas, foi chocante: 8,3% dos motoristas dirigindo à noite tinham THC no sangue ou na saliva. Os Estados Unidos acordaram. Sei que aqui vocês têm feito avaliações com fluido oral, que será a maneira que nos ajudará a controlar isso. O procedimento não é invasivo, você apenas passa um cotonete pela boca e faz um teste para ver se algumas das drogas mais comuns estão presentes, e depois há uma confirmação de laboratório para fins forenses e julgamentos. Isso tem feito a diferença. Em 2012 e 2013, outro levantamento foi realizado: o número de motoristas que haviam usado maconha e estavam dirigindo tinha subido 48% em apenas seis anos. Dessa vez, mais de 12,6% dos motoristas que dirigiam à noite tinham THC no sangue ou na saliva. É um grande problema. E agora, com toda essa discussão sobre a maconha para fins médicos ou recreativos, como vamos controlar isso?”

Uso recreativo e medicinal

“Há quatro Estados americanos, mais o Distrito de Colúmbia, com uso recreativo legal de maconha, e mais de 25 Estados permitem o uso medicinal. Temos uma droga ilegal com uso médico. Como controlar isso? Como fica a segurança? Como controlar esses usuários dirigindo? Não sou uma puritana quanto às escolhas de cada um, mas se trata de um problema de saúde e de segurança pública. Há muitos estudos dizendo que o uso de maconha dobra o risco (de acidentes graves), então como lidar com isso? Acho que as pessoas têm de tomar decisões com base em informações. Já estive em muitas legislaturas estaduais e posso garantir que as pessoas que estão decidindo não entendem as consequências disso. O meu trabalho, como cientista que tem estudado isso, é divulgar a informação científica.”

Danos desde a gestação

“Há consequências a curto e longo prazo. As de curto prazo, todo mundo consegue ver e entender. No Estado de Washington, seis semanas após a legalização, o número de casos envolvendo motoristas incapacitados pelo uso de maconha cresceu 25%. Está bem acima dos 30% agora. Quanto às consequências de longo prazo, quero dizer que tenho trabalhado muito com a exposição intrauterina às drogas. A maconha afeta o desenvolvimento do bebê, a medida de circunferência da cabeça, o peso. Há algo chocante acontecendo: obstetras do Colorado prescrevem maconha a gestantes para aplacar enjoos. Eles estão muito mal informados. Há estudos que acompanharam filhos de mães que usaram maconha na gravidez desde o nascimento até os 20 anos. São crianças que apresentaram, a partir dos quatros anos, problemas de comportamento, aprendizagem da fala, memória e compreensão. Aos 11 anos, elas ainda tinham a circunferência da cabeça significativamente menor. Aos 15, o índice de uso de drogas era mais elevado — acho que isso não deriva da exposição à maconha no útero, mas, sim, do fato de crescerem em um lar onde os pais acham aceitável fumar maconha na gestação. Antes pensávamos que o cérebro já estava totalmente formado aos 18 ou 20 anos, e hoje sabemos que isso ocorre apenas perto dos 30. Há uma série de análises que apontam a redução do QI relacionada à quantidade de maconha que você usa. A maconha é especialmente prejudicial antes dos 17 anos, e há muitos adolescentes começando aos 12, aos 13, aos 14.”

Alerta aos pais

“Há pais que me ligam para dizer que estão muito felizes porque seus filhos não estão bebendo e dirigindo, eles estão apenas fumando maconha e dirigindo. Não, eles não deveriam estar fumando, a droga prejudica os sentidos. Eles não deveriam estar fazendo isso. Os pais têm de entender que o futuro dos seus filhos pode ser afetado. Bem na época em que eles estão aprendendo, fazendo escolhas sobre a vida, usar maconha vai afetar o cérebro. Quando você para de usar a droga, o dano não desaparece simplesmente. Muitos pais acham que é uma droga leve. Não é.”

Uso eventual

“Se você fuma só de vez em quando, os problemas serão menores. Se você fuma de vez em quando e ainda é jovem, o seu cérebro ainda está se formando e pode ser afetado, mas não no mesmo nível de quem fuma diariamente. Mas, é claro, se você fuma de vez em quando, já estará prejudicando sua capacidade de conduzir um veículo.”

Prevenção

“Qual a abordagem mais efetiva para prevenir o abuso de drogas? Esta é a pergunta que vale US$ 1 milhão. Educação é a iniciativa número 1, sem dúvida. Se você tem adultos informados, eles vão ensinar as crianças, explicar para elas. Testagem é outra maneira importante de reduzir o uso de drogas. Por exemplo, no local de trabalho: se os funcionários acreditam que podem ser testados, eles não vão usar. No trânsito, é importante ter pontos de parada com testagem. É especialmente importante começar cedo, ensinando que a maconha vai afetar a capacidade de dirigir. É uma mensagem muito simples: se fumar maconha não dirija.”
Fonte:Zero Hora