Álcool potencializa casos de câncer


(Crédito: José Alves Filho)
Waldelúcio Barbosa
Correria com trabalho e estudos, vida social agitada e falta de tempo: três fatores cada vez mais presentes na vida das pessoas. Com isso, o estresse e cansaço vão aumentando, representando um mal à saúde pelas consequências que podem trazer.

Com a vida tumultuada, muitos tentam encontrar brechas para espairecer e esfriar a cabeça, e isso nem sempre quer dizer que simplesmente buscam atividades saudáveis que fazem relaxar a mente e o corpo. Há um número grande de pessoas que buscam esse descanso em hábitos que pioram sua situação, como o consumo de álcool em excesso.

De acordo com o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), em 2012, 5,6 % dos brasileiros abusavam ou dependiam de álcool. No mesmo período, a substância esteve associada a 61,5% dos índices de cirrose hepática e a 11,5% dos acidentes de trânsito no país. O consumo desequilibrado pode gerar graves consequências à saúde, representando um fator de risco não só para a cirrose hepática, mas um tipo de câncer não muito falado, porém mais letal que outros tumores, por conta do diagnóstico geralmente tardio: o câncer de fígado.

A médica hepatologista Cássia Leal aponta que o abuso do álcool, atualmente, é, certamente, um problema muito grande no Brasil, principalmente entre os jovens, podendo levar a uma série de doenças, inclusive as doenças hepáticas, como a cirrose e o câncer.

“O álcool atua como um cofator para o desenvolvimento do câncer de fígado, ou seja, ele não age diretamente no fígado como um fator oncogênico, mas ele leva à cirrose hepática, podendo, consequentemente, levar ao câncer de fígado. A maioria dos casos de câncer de fígado ocorre em pacientes portadores de cirrose hepática (95%). E o álcool tem uma participação muito grande nos casos de cirrose hepática, como uma das principais causas dessa doença em nosso país”, esclarece.

Mais de 500 mil mortes por ano

O câncer de fígado, caracterizado pela alta letalidade e sobrevida curta após o diagnóstico, é o quinto tipo mais frequente no mundo e a terceira causa de morte por câncer, levando a mais de 500 mil mortes por ano, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Os principais sintomas são fraqueza, perda de peso inexplicada, falta de apetite, mal-estar, massa abdominal, distensão, icterícia (tonalidade amarelada na pele e nos olhos) e acúmulo de líquido no abdômen (ascite). Porém, muitas vezes os sintomas se manifestam apenas nas fases mais avançadas, sendo uma doença silenciosa em fases iniciais.

“Para o desenvolvimento da cirrose hepática é necessário o consumo de pelo menos 60-80g de álcool por dia por 10 anos para os homens e de 40-60g pelas mulheres”, afirma a especialista, acrescentando que parar de ingerir bebidas alcoólicas, fazer uma alimentação mais saudável e praticar alguma atividade física são algumas das recomendações para as pessoas que querem promover uma mudança na vida social e buscar ter mais qualidade de vida.

Câncer de fígado: uma doença silenciosa

Cássia Leal ressalta que, na maioria das vezes, o câncer de fígado trata-se de uma doença silenciosa. Quando existem sintomas (como dor e massa abdominal), a doença já está em uma fase bem avançada. “O importante são os exames periódicos, chamados de ´rastreamento`, para a detecção mais precoce dessa doença, como os exames de sangue e a ultrassonografia de abdome”, destaca.

O câncer de fígado pode ser dividido em dois tipos: câncer primário (que tem sua origem no próprio órgão) e secundário ou metastático (originado em outro órgão e que atinge também o fígado). O mais frequente câncer primário, que ocorre em até 80% dos casos, é o hepatocarcinoma ou carcinoma hepatocelular. A cirrose hepática está na origem de mais da metade dos casos desse tipo, caracterizado por ser agressivo e de curto tempo de evolução.

Existem várias possibilidades de tratamento dependendo do estágio em que a doença se encontra. Quando o câncer de fígado é diagnosticado nos estágios mais iniciais, os tratamentos são considerados curativos, porém, quando o diagnóstico só ocorre em fases avançadas da doença, só existem os tratamentos chamados paliativos (aumentam a sobrevida, mas não são curativos).

“Os tratamentos considerados curativos são a cirurgia, o transplante de fígado e os procedimentos menos invasivos por radiologia intervencionista (ablação por radiofrequência e alcoolização) com uma possibilidade de sobrevida em torno de 85-90% em 5 anos. E os tratamentos paliativos são a quimioembolização hepática e o quimioterápico oral (sorafenibe)”, pontua.
Fonte: Jornal Meio Norte