Um terço dos jovens brasileiros bebe álcool em excesso, diz estudo da Unifesp


Um terço dos jovens consome bebidas alcoólicas em excesso (Foto: Shutterstock)
TATIANE CALIXTO

Metade dos adolescentes entrevistados diz consumir álcool desde por volta dos 15 anos

Batida, vodca, vinho são as bebidas preferidas de Amanda(*). Ela conta que já bebeu por tristeza, mas geralmente o faz por diversão. “Porre, de cair mesmo? Vixe, vários! Eu fico muito bêbada. Caio, choro…”. Hoje, ela tem 18 anos, mas os fins de semana de bebedeira começaram aos 15, 16. E são frequentes. Segundo Amanda, há a possibilidade de sair sem que se consuma álcool, mas é difícil. Com bebida, há mais riso e diversão, considera. “Dá para sair sem beber, mas tem que estar com uma galera muito, muito legal. Mas, geralmente, a turma prefere ter bebida”.

E, de certa forma, a turma da Amanda é grande. O mais recente Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que metade dos jovens entrevistados afirmou consumir bebida alcoólica desde por volta dos 15 anos. Destes, 36% revelaram fazer uso nocivo do álcool, o que vem sendo chamado de binge drinking (BD). Ainda não há uma tradução muito satisfatória para o português, mas BD representa um padrão de consumo de risco: no mínimo, quatro doses de álcool em uma única ocasião por mulheres e cinco doses por homens. Uma lata de cerveja, por exemplo, é considerada uma dose, tal qual uma garrafa long neck.

“O binge drinking é muito mais frequente entre os jovens”, pontua o psiquiatra Claudio Jerônimo da Silva, professor filiado do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Ele explica que um dos problemas é que o cérebro do adolescente não está totalmente formado e qualquer interferência neste período tende a afetar negativamente o crescimento. No caso do álcool, pode-se desenvolver ansiedade e depressão.

Bebida e prazer

Silva atua na Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da universidade e explica que a ligação feita por adolescentes entre lazer, prazer e os efeitos do álcool representa um perigo para os padrões de comportamento futuros, levando à dependência do álcool e de outras drogas.

Episódios de BD também podem resultar em gastrite e pancreatite, mas preocupam mesmo pela relação com comportamentos de risco, como sexo sem proteção e dirigir embriagado.

Alice (*) tem 18 anos e começou a beber aos 16. Sempre consome álcool aos fins de semana e confessa já ter ficado de porre. Como dizem que a primeira vez não se esquece, ela lembra bem que, em sua primeira embriaguez, conheceu um rapaz e o levou para casa. “Foi muito arriscado. Depois, me arrependi”.

Foi nas saídas regadas a bebidas que Alice experimentou maconha e usou lança-perfume. O estudo também mostra que, sob o efeito do álcool, 15,8% dos homens e 9,4% das mulheres entrevistados usaram drogas ilícitas.

“Todo mundo é assim”

Para Alice, começar a beber aos 16 anos é realmente muito cedo. “Acho cedo, mas hoje em dia todo mundo é assim”, afirma. Um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) denominado Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PenSE), de 2015, traduz em números a percepção da garota.

De acordo com os dados, de 2012 e 2015, a experimentação precoce de bebidas alcoólicas subiu de 50,3% para 55,5% entre os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental II no País. Nesta etapa, os alunos têm entre 13 e 15 anos.

“O álcool é a substância psicoativa mais consumida entre os adolescentes, por diversas razões. Mudanças físicas, sociais e psicológicas da puberdade, traços de personalidade e fatores hereditários podem estar entre elas. Além disso, ao observarem adultos bebendo ou propagandas na mídia, os adolescentes criam certas expectativas em relação ao álcool e seus efeitos e o experimentam por curiosidade”, afirma o presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade.

Conforme Andrade, as mudanças físicas e psicológicas que acontecem durante a puberdade podem despertar tendências a comportamentos impulsivos e a necessidade de testar limites impostos pelos pais e adultos. Nesse sentido, o consumo de álcool pode, muitas vezes, ser uma forma de desafiar esses limites. Para Alice, foi mais ou menos assim. “Meu pai era muito rígido, me deixava bastante presa. Depois que meus pais se separaram e fiquei com minha mãe, quero aproveitar. E tem que aproveitar, antes de começar a ter mais responsabilidades”.

Pressão social

Além dessa questão, para Andrade, há também o componente social: a pressão do grupo é comum na adolescência, e muitos jovens podem se sentir impelidos a consumir álcool para acabarem sendo aceitos pelos colegas. “É fundamental que família e escola alertem os adolescentes para as consequências e os prejuízos do consumo de álcool, para que os jovens possam avaliar essas informações com olhar mais crítico”.

Claudio Jerônimo da Silva, que pertence à Unifesp, acredita que é preciso ir além dessa conscientização e assegurar políticas públicas de proteção dos jovens em relação ao álcool.

Garantir a eficácia da proibição da venda de bebidas a menores de 18 anos e diminuir a exposição deles ao marketing a favor das bebidas são exemplos de ações eficazes.

* Nomes fictícios
Fonte: A Tribuna