Pesquisa com crianças no centro de SP revela acesso fácil a drogas, agressões e fome

Usuários de drogas se amontoam na cracolândia, na região da Luz, em São Paulo – Edilson Dantas / Agência O Globo (31/08/2017)
Entorpecente é oferecido por terceiros, dizem 58% dos jovens da Cracolândia
POR LUIZA SOUTO

SÃO PAULO – Uma pesquisa realizada com crianças e adolescentes que vivem no centro de São Paulo revela acesso fácil e precoce a álcool e drogas, além de uma situação de vulnerabilidade evidenciada por trabalho infantil, agressões e fome. Os dados mostram que mais da metade dos jovens que vivem na Cracolândia dizem que as drogas chegam a eles por meio de terceiros e que não precisam sequer procurar os traficantes.

O estudo dividiu os resultados por faixas etárias. Um terço das crianças que têm entre 2 e 6 anos afirma se alimentar na rua. Já no grupo de 7 a 11 anos, 12% responderam que trabalham e 37% declaram sofrer algum tipo de violência, como agressão e insultos. Entre os jovens de 12 a 17 anos, um quarto já teve contato com bebidas alcoólicas, considerada por especialistas como porta de entrada para o consumo de drogas.

Os resultados fazem parte da pesquisa “A Criança no Centro: um retrato das infâncias na cidade de São Paulo”, feita ao longo do ano por cinco ONGs que atuam na região com população em situação de vulnerabilidade social e divulgada nesta sexta-feira. Foram ouvidas mais de 500 crianças e adolescentes de 2 e 17 anos que vivem nos bairros da Sé, República, Anhangabaú, Santa Cecília e Campos Elíseos, onde fica parte da Cracolândia.

Nessa região do centro de São Paulo, onde a venda e o consumo de drogas acontece livremente, foram ouvidas 22 crianças e adolescentes em situação de rua. Delas, 55% já tiveram contato com um ou mais tipos de entorpecentes. Durante o trabalho dos pesquisadores, a maior parte das crianças estava consumindo drogas quando foram abordadas: thinner (41% dos entrevistasdos), crack (18%) e cigarro (5%).

Quando perguntados como foi o primeiro contato com a droga, 42% disse que foi por vontade própria e 58% afirma que aceitou o que foi oferecido por terceiros.

Desses jovens, 41% declararam que se dividiam entre dormir na rua e em casa, enquanto 27% disseram que dormiam somente na rua.

PREFERÊNCIA PELA RUA

No grupo de 2 a 6 anos, a rua aparece como preferência de 51% das crianças, em especial os meninos, pois 60% deles declaram gostar da situação. Para os pesquisadores, isso representa uma situação de extrema violação de direitos.

Das crianças de 7 a 11, 19% declararam dormir com fome ou não souberam responder essa questão. No grupo de 12 a 17 anos, 8% afirmaram que dormem com fome.

Ainda entre os mais velhos, 79% alegaram que nunca se envolveram com roubo ou furto. Outros 13% responderam que já praticaram esse tipo de crime para “ajudar em casa” ou comprar “roupas, calçados ou eletrônicos”.

“Culpabilizar os adolescentes ou simplesmente institucionalizá-los ou ceder a pressões midiáticas, não garantirá transformações de vidas, ou ainda, resposta qualificada a esta problemática social, deixando mais longe o rompimento do ciclo da pobreza e miséria”, observam os pesquisadores no relatório.

Procurada para comentar o estudo, a Prefeitura de São Paulo informou que desconhece o conteúdo da pesquisa, mas que “trabalha para melhorar as condições de vida de todas as crianças da cidade, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade”.

A prefeitura destacou a a criação de 18 mil vagas em creches neste ano e a promulgação do marco regulatório da primeira infância, que envolve as secretarias de Educação, Saúde e Assistência Social.

A gestão municipal afirma manter serviços especializados de abordagem e atenção a crianças em situações de rua, além de um programa de prevenção e erradicação do trabalho infantil (PETI), que tem como pressuposto “a promoção, garantia e defesa dos direitos da criança e do adolescente em situação de exploração e trabalho infantil”.
Fonte: O Globo