Uso de drogas por crianças: o quê fazer?

Por Eduardo Marcondes

Se o consumo de drogas constitui um dos principais problemas da sociedade moderna, o uso dessas substâncias por crianças se revela a faceta mais cruel dessa realidade. Como profissional que tem por missão prevenir e cuidar da saúde das crianças, não poderia deixar de abordar, neste espaço de O Progresso, essa chaga que se prolifera Brasil afora, não sendo diferente em nossa cidade.

Por estar ainda em estado de formação, a criança que se droga compromete tanto o seu futuro quanto o da sociedade que a cerca. As conseqüências do uso de entorpecentes na infância são devastadoras, às vezes irreversíveis, de forma que a criança drogada se torna mais excluída socialmente e frágil perante a criminalidade. A maconha, por exemplo, pode causar irritabilidade e uma perda gradativa de memória e de concentração. O devastador crack causa desde confusão mental e alucinação até cegueira e morte.

Uma grande preocupação dos pais de adolescentes e pré-adolescentes é o uso de drogas ilícitas pelos filhos e, aqui vale lembrar que, o álcool e o cigarro são drogas ilícitas até os 18 anos de idade. Estatísticas americanas mostram que um em cada quatro adolescentes que usam drogas entre os doze e dezessete anos, torna-se dependente químico, um índice significativamente maior do que em qualquer outra faixa etária.

Geralmente, quando nossos filhos são pequenos e ouvimos falar sobre drogas ilícitas e dependência química, imaginamos que este problema atinja somente pessoas de baixa renda ou com famílias desajustadas. Porém, os dados mostram que as coisas não são bem assim e, basta olharmos com atenção ao nosso redor, para comprovarmos estes dados. O acesso e o apelo ao uso de drogas ilícitas entre adolescentes e até mesmo entre crianças é cada vez maior. As drogas podem estar disponíveis no clube, nas baladas, na festa de 15 anos de uma amiga, na casa de um amigo, pasmem, na escola.

Ao conversar sobre drogas com os filhos é muito importante ter em mente e lembrá-los que, quando alguém experimenta uma droga como o álcool, tabaco, maconha ou cocaína, ninguém é capaz de saber se ele se tornará dependente ou não. Ainda não se sabe com clareza por que os organismos reagem de formas diferentes às drogas, ou seja, como um adolescente pode experimentar o álcool e não se tornar dependente e outro se transformar em um alcoólatra.

Estudos mostram que a hereditariedade desempenha um papel determinante na susceptibilidade de uma pessoa aos efeitos das drogas. O índice de alcoolismo entre filhos de pais alcoólatras é 4 a 5 vezes maior do que entre filhos de não alcoólatras. Por esta teoria, poderíamos herdar um gene predisponente à dependência química. Se há casos de alcoolismo na família é importante conversar com o seu filho sobre isto. Talvez esta informação seja útil se ele estiver pensando em experimentar drogas.

Além da predisposição genética, outros fatores aumentam a chance de um adolescente ser “capturado” pelas drogas. No caso dos portadores de condições psicológicas não tratadas como depressão, ansiedade, distúrbios de comportamento e de personalidade e também os portadores de transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e outros problemas que interfiram com o “sucesso” acadêmico ou social, o uso de drogas ilícitas pode-se tornar uma solução desastrosa.

A falta de supervisão e definição de limites consistentes pelos pais, familiares que usam ou aceitam o uso de drogas ilícitas também expõe as crianças, tornando-as alvo fácil das drogas.

Diante deste cenário, como defender nossas crianças? é bem melhor que os pais sejam os primeiros a conversar com os filhos sobre isto. O adolescente lhe dará maior credibilidade se seus pais conhecerem os fatos e eles, os pais, serão mais capazes de reconhecer o problema nas fases iniciais, quando as chances de reversão são maiores.

A questão das drogas lícitas e ilícitas deve ser tratada como problema de saúde pública e ser integrada às políticas governamentais vigentes. As estratégias de prevenção dos diversos agravos que acometem os adolescentes devem constar dos programas de saúde pública adotados pelas três esferas de governo (municipal, estadual e federal).

Na prevenção a divulgação de informações é o meio mais conhecido e utilizado, não usando o amedrontamento e sim a “valorização da vida” como eixo central. Apesar de ser fundamental o conhecimento, ele não é capaz de, por si só, mudar o comportamento dos adolescentes. Para tanto, recomenda-se outros modelos de prevenção, como fortalecimento de atitudes saudáveis, promoção de atividades esportivas e culturais, modificação do ambiente e sensibilização de líderes juvenis com o objetivo de que se tornem multiplicadores junto a seus pares.

Promover a criação de redes de apoio, intensificar a atenção integral à saúde dessa faixa etária e insistir na valorização da vida podem ser os diferenciais para a prevenção de uso e abuso de drogas por crianças e adolescentes.

Médico pediatra
Fonte: O Progresso