Número de casos envolvendo drogas sobe nas escolas de SP

Foram mais de 18 mil casos de vandalismo e 6.800 casos de drogas nas escolas nos últimos 4 anos, segundo dados obtidos com exclusividade pelo R7

As escolas da rede estadual de São Paulo registraram 6.800 ocorrências de consumo ou venda de álcool e outros drogas entre 2014 e 2017, o equivalente a 4,6 casos de presença de entorpecentes em escolas por dia, segundo dados do ROE (Registro de Ocorrências Escolares) obtidos com exclusividade pelo R7, via Lei de Acesso à Informação.

O Registro de Ocorrência Escolares também apresenta dados sobre o vandalismo nas escolas. No mesmo período foram 18.992 ocorrências de danos e outros crimes contra o patrimônio, entre eles depredação, pichação, roubo, furto e invasão, registrados nas mais de 5 mil escolas da rede estadual de educação.

“O ROE (Registro de Ocorrências Escolares) foi criado em 2010 e permite o apontamento imediato de situações de vulnerabilidade nas escolas, como episódios de bullying, agressões, depredação do patrimônio público”, explica a Secretaria Estadual de Educação.

O sistema da secretaria é abastecido diariamente pelas mais de 5 mil escolas estaduais do sistema estadual de ensino. Ainda de acordo com a pasta, “os dados norteiam a adoção de políticas educacionais e pedagógicas nas unidades de ensino”.

CONSUMO E VENDA DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

O ano de 2017 foi o ano com maior número de registro de ocorrências de casos de consumo ou venda de álcool e outras drogas nas escolas estaduais paulistas, quando foram registrados 2.061 casos, o equivalente a mais de cinco casos por dia, no ROE da Secretaria Estadual de Educação. Os dados mostram ainda que as ocorrências aumentaram ano após ano. Em 2014, foram 1.486 ocorrências, outros 1.584 em 2015 e 1.669 em 2016.

“Na escola aparece de tudo, vai desde garrafinhas de cachaça até cocaína, maconha e até mesmo crack. Sempre que acontece de um professor, aluno ou alguém da direção relatar, nós registramos no sistema”, diz a diretora de uma escola que preferiu não se identificar.

O maior índice de casos é de drogas ílicitas. Em uma determinada diretoria de ensino da capital, que reúne dados de ao menos 12 escolas estaduais, as drogas ílicitas como cocaína e maconha representam mais de 61% das ocorrências registradas. O restante é de drogas lícitas, como álcool e cigarros.

Há também o registro de drogas escondidas ou abandonadas na escola, que representam os menores indíces no sistema de gestão estadual.

Fernando*, 17 anos, é estudante de uma escola na zona norte de São Paulo. Ao lado de outros dois amigos, ainda na porta da escola, ele relata que fuma maconha desde os 15 e afirma que já foi para a diretoria várias vezes. No ano passado, Fernando* foi ao menos três vezes para a direção pelo mesmo motivo, destas, ao menos duas foram registradas no ROE pela direção da escola.

Ao ser questionados onde compram, todos ficam mudos. É de uma funcionária da escola que vem a certeza. “Eles compram aqui dentro mesmo, não é difícil descobrir. Repreender é sempre pior, pois gera atrito”, diz ela.

A Secretaria de Educação desenvolve campanhas de conscientização nas escolas, quando uma situação mais grave é flagrada, a polícia é chamada. Em uma escola, também na zona norte, policiais foram filmados agredindo alguns alunos que estavam fumando maconha nos corredores da escola.

VANDALISMO

Casos envolvem pichação, depredação, invasão, roubo ou furto Arte/R7

Os casos relacionados a vandalismo no sistema da Secretaria Estadual de Educação somam 18.992 casos nos últimos quatro anos, entre eles está casos de pichação, depredação, invasão, roubo e furto.

O ano de 2014 foi o com maior número de problemas, com 5.241 ocorrências registradas. Em 2015, 5.135 casos foram registrados, enquanto em 2016 houve registro de 4.376 ocorrências. No ano passado, foram 4.240 casos registrados.

Os dados mostram uma queda gradual, mas professores e diretores ouvidos pela reportagem afirmam que, por outro lado, os casos de vandalismo causaram mais problemas.

Um dos casos registrados no sistema é o de uma escola estadual de Mauá, na Grande São Paulo. No ano passado suspeitos pularam o portão e roubaram fios e cabos de cobre da parte externa da escola. No inicio deste ano, a mesma escola foi alvo do mesmo crime novamente. Além dos fios, o quadro de luz e o relógio que marca o consumo de energia foi levado, o que acabou atrasando o inicio das aulas.

Por outro lado, na zona norte de São Paulo, um grupo invadiu e levou os computadores da escola. Todos os casos foram lançados no Registro de Ocorrências Escolares da Secretaria Estadual de Educação.

Pedro* marcou as paredes da escola onde estudava, na zona oeste de São Paulo, durante os quatro anos que a reportagem obteve os dados. Nos números do Governo, as pichações que o jovem de 23 anos fazia constam como estatísticas. “Queria ter meu nome divulgado, sempre pensei em fazer uma parada assim [escrever nas paredes]”.

Com o tempo, as pichações de Pedro ganharam tons artisticos e cores, e transformaram-se em grafites. “Fiz o meu nome no picho e, depois, fui fazendo personagens com grafite, ganhando ‘ibope’ e assim fui evoluindo, me aprimorando”, explica.

Quando concluiu o ensino médio, no ano passado, ele conseguiu concretizar o sonho de transformar seus desenhos em uma marca de roupas. Hoje, o que foi registrado pela Secretaria de Educação como “vandalismo” feito nas paredes da escola é o sustendo do jovem.

Os casos de vandalismo e depredação são os mais frequentes, representando cerca de 57% das ocorrências deste tipo em uma uma diretoria de ensino da cidade de São Paulo a qual a reportagem teve acesso.

DADOS AJUDAM A COMBATER A VIOLÊNCIA

A Secretaria de Educação afirma que os dados do Registro de Ocorrências Escolares servem para direcionar “a adoção de políticas educacionais e pedagógicas nas unidades de ensino”.

Segundo a pasta, as informações são utilizadas como fonte de informação para programas que visam reduzir a violência nas escolas e que os dados têm “cunho pedagógico e educacional” para que as escolas trabalhem com as causas dos conflitos, suas origens, e não apenas com os seus sintomas ou manifestações.

A Secretaria destaca, entre as ações de combate a violência nas escolas, o programa de mediadores, que cria a figura de um professor ou diretor que atua na mediação de conflitos e atua no diálogo para mitigar problemas de violência.

Na Escola Estadual Professo Gabriel Ortiz, por exemplo, uma professora-mediadora que também tem formação em psicologia, desenvolveu um trabalho de formação com jovens do ensino médio para que os alunos possam perceber problemas na sala de aula e discutirem ações para resolve-los. A secretaria diz ainda que todas as escolas da rede possuem programas de mediação.

* Nomes fictícios para preservar a identidade dos estudantes
Fonte: R7