Primeiro consumo de álcool e seus desdobamentos na idade adulta

O consumo precoce de álcool tem sido relacionado com o envolvimento em situações de risco (tais como atividade sexual desprotegida, ferimentos em discussões, uso de drogas ilícitas), assim como queda no desempenho escolar e comprometimento do desenvolvimento do Sistema Nervoso Central. Da mesma forma também têm sido associado à transtornos relacionados ao uso de substâncias na idade adulta. Há evidências de que fatores ambientais relacionados ao contexto familiar, como o consumo de álcool pelos pais, e a influência dos pares estão correlacionados à ingestão precoce de álcool. Há, contudo, algumas inconsistências na literatura científica quanto à relação entre a idade do primeiro consumo de álcool (IPCA) e os possíveis desdobramentos posteriores.

Um estudo realizado na Nova Zelândia examinou dados de uma coorte de nascimentos para investigar os vínculos entre a idade do primeiro consumo de álcool (IPCA) e uma série de resultados medidos desde o final da adolescência até a idade adulta (15 a 35 anos), incluindo: transtorno depressivo maior; transtorno de ansiedade; transtornos relacionados ao de uso de álcool; dependência de nicotina; cannabis e outras drogas ilícitas. Como a determinação da idade da primeira ingestão de álcool na coorte foi realizada retrospectivamente em diferentes momentos (quando os participantes tinham entre 11 e 13 anos de idade), o estudo empregou métodos de análise de classes latentes para estimar uma medida mais precisa deste momento.

Uma coorte de 1265 crianças (635 meninos, 630 meninas) nascidas em Christchurch (Nova Zelândia) em meados de 1977 foi estudada no nascimento, aos 4 meses, 1 ano, anualmente até os 16 anos e novamente aos 18, 21, 25, 30 e 35 anos. Aos 11, 12 e 13 anos, os membros da coorte foram convidados a relatar a idade em que consumiram álcool pela primeira vez. Também a partir dos 11 anos, os pais dos participantes foram questionados sobre o consumo de álcool por seus filhos. A partir desses dados, foi possível classificar a idade relatada do primeiro consumo de álcool nos seguintes intervalos: 0-5 anos, 6-10 anos, 11-12 anos e depois dos 13 anos.

Aos 16 anos, os participantes responderam à Escala de Entrevista Diagnóstica para Crianças (DISC) e aos 18, 21, 25, 20 e 35, responderam à Entrevista Diagnóstica Internacional Composta (CIDI). Esses dados foram utilizados para identificar se os participantes atendiam aos critérios do DSM-IV para Transtorno Depressivo Maior e Transtorno de Ansiedade nos intervalos entre 15-17, 19-20, 21-24, 25-29 e 30-35 anos. Além disso, aos 16, 18, 21, 25, 30 e 35 anos, os participantes foram questionados sobre comportamentos de uso de substâncias e problemas associados desde a avaliação anterior (álcool, tabaco, cannabis, outras drogas ilícitas), com base no CIDI. A partir dessa informação, foram classificados conforme os critérios de DSM-IV para transtornos por uso do álcool (dependência ou abuso), dependência de nicotina, cannabis e outras substâncias ilícitas durante os intervalos 15-17, 18-20, 21-24, 25 -29 e 30-35 anos.

Foram incluídos na análise conjuntos de fatores covariáveis, a saber: condições socioeconômicas e demográficas da família (idade da mãe no nascimento do filho, padrão de vida da família, nível de educação parental, status socioeconômico; estrutura e rendimento familiar, etnia); características individuais de personalidade e comportamentais (gênero, problemas de conduta na infância, neuroticismo e busca à novidade); funcionamento familiar, comportamento parental e medidas de exposição ao abuso (consumo parental de álcool e outras drogas, criminalidade parental, permissão dos pais para o uso de álcool pelos filhos, atitudes dos pais em relação ao álcool, apego aos pais, abuso físico e sexual na infância, violência e interparental).

A princípio, os resultados do estudo indicaram que a idade do primeiro consumo de álcool (IPCA) estava associada significativamente ao aumento de risco para transtornos por uso de álcool, dependência de nicotina e outras substâncias ilícitas. No entanto, após um ajuste de fatores covariáveis medidos na infância, houve uma redução da magnitude da relação entre IPCA e desenvolvimento de transtornos de saúde mental e consumo na fase adulta, sugerindo que tais fatores podem aumentar tanto o risco de IPCA quanto de transtornos por uso de substancias.

Os achados desse estudo, junto à uma análise anterior dos dados da mesma coorte sugeriram que, embora houvesse relação entre a IPCA e padrões de consumo problemáticos em meados da adolescência, esses comportamentos não se traduziram em maior risco de transtorno por uso de álcool ou outras substâncias na idade adulta, ou seja: embora a IPCA tenha uma associação forte com o uso de álcool na adolescência, essa associação perde força na idade adulta e seu impacto no abuso de substâncias é, na maioria das vezes, a curto prazo. O impacto da IPCA a longo prazo está mais relacionado a um conjunto de fatores de risco individuais e sociais: traços de personalidade, traumas, relações disfuncionais no ambiente familiar e vulnerabilidade social.
Fonte: CISA