Casagrande fala sobre vício em drogas

Dependente químico em recuperação, Walter Casagrande, há anos sem recair ao uso de drogas, deu importante depoimento sobre sua luta contra o vício na série “Prisão Química – Casagrande e a Luta Contra a Cocaína”, do doutor Drauzio Varella, levada ao ar neste domingo (20) no programa Fantástico, da Rede Globo.

Logo no início do episódio, o comentarista recordou como tudo começou, ainda jovem, atuando pelo Corinthians. “Foi em 1982, em um show do Peter Frampton no Corinthians. Eu conheci a cocaína naquele dia.”

Perguntado pelo médico sobre a sensação, Casagrande admitiu que aquilo era prazeroso. “Era maravilhosa, aquilo que a cocaína dá, mesmo. Você se sente poderoso, se acha mais culto ou mais inteligente do que realmente é.”

O uso da droga significou para ele uma fuga da dor que sentia após a morte da irmã mais velha, Zilda, vítima de um infarto aos 23 anos. “Isso foi um baque muito forte. Eu engoli, porque vi o sofrimento da minha mãe e do meu pai e falei: ‘Não posso demonstrar o sofrimento, também’. Carreguei isso pra vida, e aí é claro que as memórias vinham e me pegavam. Quando conheci a cocaína, parou. Eu parei de sofrer com a morte dela.”

Casão contou como era o seu uso de drogas. Inclusive em dias prévios aos de jogos pelo Corinthians. “Eu usava maconha e cocaína na semana. Até cheguei a usar em véspera de jogo.”

“O modo que saía na noite para arrebentar, eu treinava para arrebentar. O meu físico segurou muito essa onda”, disse na série da Globo.

Recuperado, em uma luta diária contra a recaída, Casagrande explicou como é sua vida atualmente. Ter uma rotina diária, saudável e estar sempre acompanhado por um familiar, amigo ou mesmo por uma psicóloga, é fundamental para não voltar ao vício, admitiu.

“Segunda, acordo às 9h, vou para a academia, almoço e vou para a terapia. É assim, eu programo a semana toda, inclusive final de semana o divertimento. Cumpro 95%. Se não tiver um amigo ou meu filho para sair, eu saio com a psicóloga, porque sentir sozinho ou cair na solidão é uma estrada rápida para a recaída”, explicou.

“Quando eu entro no banheiro, tem um cara cheirando cocaína em cima da pia e ele vira pra mim e fala assim: ‘Quer?’. Essa é a cena que imagino de maior risco pra mim. Se me der uma vontade insuportável de ir ao banheiro, eu pago a conta e vou pra minha casa. Eu evito armadilhas, doutor”, contou ao médico Drauzio Varella.

Na série, Casão relembrou a fase mais difícil da doença, quando perdeu o controle, pouco tempo depois de se aposentar do futebol. “A partir de 1998. Veio o vazio, o vazio do vício da adrenalina de se jogar futebol. Não tem nenhuma coisa no mundo que dá a mesma sensação de prazer que um gol em um jogo importante. O pico do prazer vai lá em cima e volta. Isso aí vicia.”

O doutor Drauzio explicou como tudo funciona na mente do viciado. “O problema é que ao mesmo tempo em que estimula a área ligada ao prazer na parte central do cérebro, a cocaína agride essa camada mais externa, que é responsável pelo planejamento, raciocínio e o controle da impulsividade.”

“Tive quatro overdoses. Eu tive uma overdose na frente do meu filho. Eu estava no banheiro e ele do lado de fora. Tive uma overdose de droga injetável e entrei em convulsão no banheiro”, lembrou Casagrande.

Leonardo, então com 16 anos, falou sobre como o pai estava naquela oportunidade. “Ele estava meio capengando, meio corcunda. Parecia que estava com dor de barriga.”

“Ali eu assinei: ‘Sou dependente químico compulsivo’. Porque não é possível fazer isso na frente de um filho”, disse.

O comentarista falou como era o seu estado mental sob influência da droga no estágio mais avançado do vício. “Eu comecei a ter visões, a ter surto psicótico. Comecei a ver demônios dentro do meu apartamento. Não dava para eu ver totalmente o rosto, o sofá murchava, parecendo que tinha alguém sentado e aparecia duas garras na ponta do sofá.”

E foi nessa fase da doença que Casão sofreu grave acidente automobilístico. Em setembro de 2007, depois de misturar cocaína com calmantes e medicação para baixar a pressão, perdeu o controle do carro e capotou. “Eu apaguei. Desmaiei, e o pé desceu no acelerador, acelerou. Desse lado de cá [esquerdo] tinha um monte de gente na calçada, e do lado de cá [direita] estavam todos os carros na calçada. A minha sorte foi que pendi para o lado de cá [dos automóveis], bateu na guia, subiu, capotei em cima de seis carros e caí do outro lado.”

Após o acidente, Casagrande foi internado em uma clínica de reabilitação. “Eu sofri o acidente, acordei no hospital, vi o doutor Pablo [médico psiquiátrico da clínica] lá. Não sabia quem era, dormi de novo e quando acordei estava aqui dentro [da clínica]. Meu filho [Victor] assinou a responsabilidade da internação porque eu era involuntário. Involuntário é que não escolhe vir”, esclareceu.

Se dependesse dele naquele momento, não se internaria, reforçou. “Não, eu não vinha, lógico que não. Eu não percebia. Mesmo estando mal, estourado, sem dormir e comer, sem beber água, magro, eu estava achando que estava tudo certo.”

“A dependência química é uma doença crônica, ela é incurável e é fatal. Ou o cara morre ou se recupera”, explicou.
Fonte: Yahoo