Efeitos negativos de beber ou fumar durante a amamentação

Embora o álcool seja um teratógeno conhecido, os estudos sobre o consumo materno de álcool durante a amamentação e os escores básicos de desenvolvimento dos bebês produziram resultados mistos. Embora a Organização Mundial de Saúde recomende evitar o uso de álcool e outras drogas durante a amamentação, estima-se que até 83% das mulheres que amamentam relatam consumir álcool, e 7% a 16% relatam fumar. A idade materna mais avançada, o aumento da escolaridade e o maior tempo de amamentação estão associados ao aumento do consumo de álcool entre as lactantes. Por outro lado mães mais jovens, menor escolaridade e baixa renda estão associadas ao aumento do consumo de tabaco. Mulheres que amamentam relatam consumir álcool por não existirem evidências claras de prejuízos ao bebê e pela crença equivocada de que o álcool aumenta a produção de leite. O álcool passa rapidamente para o leite e atinge concentrações semelhantes às do sangue materno, além de reduzir a sua produção. Embora a ingestão de álcool imediatamente após a alimentação minimize a exposição do bebê, nem todas as mulheres usam essa técnica. Além disso, os horários de amamentação podem ser irregulares, impossibilitando o uso dessa estratégia. ‍ Descartar o leite “contaminado” não reduz a concentração de álcool, pois isso está relacionado com a concentração de álcool no sangue da mãe.

A nicotina também passa rapidamente para o leite, e atinge concentrações que podem ser até mesmo mais altas do que as concentrações no sangue da mãe, e também está associada à redução na produção e às mudanças na composição e sabor do leite materno.‍ Apesar de acreditarem que o tabaco seja prejudicial para os bebês, o tabagismo materno durante a amamentação se deve, em grande parte, às dificuldades de parar de fumar associadas à dependência.

Pesquisas disponíveis sugerem que a exposição ao álcool através do leite materno pode ter consequências cognitivas negativas para os filhos. Um estudo feito em modelo animal mostrou que ratas que receberam álcool durante a gestação e a amamentação tiveram filhotes com redução no aprendizado. ‍No entanto, isso poderia ser devido somente à exposição pré-natal, já que‍ não se observou declínio cognitivo quando o álcool foi administrado apenas durante a lactação. Da mesma forma, em um estudo que avaliou filhotes de ratas que receberam álcool durante a gravidez e a amamentação, observou-se redução dos neurônios do cerebelo e de uma região específica do cérebro (hipocampo), e aumento da morte celular em outra (córtex). Essa perda neuronal também foi observada quando a exposição foi feita apenas durante a lactação, evidenciando os efeitos negativos do álcool sobre a prole nesse período.‍ Estudos em humanos têm sido amplamente focados na avaliação das perturbações do sono e da alimentação de bebês, associadas ao consumo de álcool durante a amamentação.‍ Um estudo de caso de 1978, descreveu uma criança que desenvolveu síndrome de pseudo-Cushing (produção excessiva do hormônio cortisol, desencadeada pelo álcool) após o consumo pesado de álcool materno durante a lactação, mas não durante a gravidez. Os sintomas diminuíram após a cessação do uso de álcool pela mãe. Enquanto pesquisas mais antigas (1989-2002) encontraram redução dos escores psicomotores em bebês de 1 ano de idade cujas mães ingeriram álcool durante a amamentação, estudos recentes (2017) não observaram essa redução. ‍

Em relação à nicotina, pesquisadores observaram que a exposição de filhotes de ratos à nicotina durante a gravidez e a lactação não interferiram no aprendizado e na memória, que permaneceram intactos. Todavia, em um outro estudo com ratas prenhes, expostas à nicotina durante a gravidez e a lactação, a prole atrasou o desenvolvimento de proteínas envolvidas no desenvolvimento cognitivo (receptores muscarínicos). Estudos em humanos que avaliam as relações entre o tabagismo durante a lactação e os resultados de desenvolvimento infantil ainda são escassos. ‍ Mulheres que fumam podem ter bebês com baixo peso ao nascer‍ e desmamar os bebês precocemente. ‍ Como o baixo peso e o menor período de amamentação‍ estão associados à diminuição da cognição, esses fatores poderiam reduzir a cognição infantil. Outro achado sobre o uso de tabaco durante a lactação, foi a redução dos níveis de iodo nas crianças. Embora essa deficiência possa, teoricamente, resultar em comprometimento cognitivo, isso não foi avaliado. ‍

Dentro deste contexto, este é o primeiro estudo a examinar diretamente se o consumo de álcool ou tabaco durante a lactação comprometeria o desenvolvimento cognitivo em crianças. A hipótese foi que o uso de álcool e nicotina durante a amamentação resultaria em escores cognitivos mais baixos, de maneira independente do uso na gravidez, e dose-dependentes. Os resultados indicam que o aumento do consumo de álcool por lactantes foi associado à redução da capacidade de raciocínio abstrato em crianças com idades entre 6 e 7 anos.

Fonte: CISA