EUA reúnem especialistas para examinar mortes por consumo de drogas

A agência federal antidrogas americana reúne especialistas para examinar a escalada de mortes por consumo excessivo de opioides, como o analgésico Fentanil e a heroína. Acesso fácil a medicamentos legais entra no foco das atenções

Jorge Vasconcelos – Especial para o Correio

A agência do governo americano para repressão e controle de drogas, a DEA, reúne amanhã os mais renomados especialistas em dependência química do país, em mais uma tentativa de frear os sucessivos recordes de mortes por overdose de drogas legais e ilegais — o principal problema de saúde pública nos Estados Unidos. A iniciativa dá sequência a uma reunião convocada em março pelo presidente Donald Trump para discutir com diversos órgãos federais medidas de combate à “epidemia dos opioides”, como está sendo chamada.
Estimativas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) apontam para 74 mil mortes no ano passado, o que torna as overdoses mais letais que os acidentes de trânsito e os ataques por armas de fogo. Em 2016, esse número fechou em 64 mil mortes, e o uso de opioides esteve associado a 42.249 dos casos (66%). Estudiosos do assunto apontam a falta de critérios para a prescrição de opioides e o comércio ilegal como as principais causas a serem enfrentadas.
A escalada das mortes por overdose por drogas nos EUA começou no início da década de 2010, principalmente vinculada à prescrição excessiva de Oxycontin e outros analgésicos legais, fazendo com que mais de 2 milhões de pessoas se viciassem. Hoje, o país tem mais usuários de drogas psicoterapêuticas do que de cocaína, heroína e alucinógenos — somados. As visitas aos departamentos de emergência por suspeita de overdoses por opioides aumentaram 30% em 45 estados americanos, entre julho de 2016 e setembro de 2017. Todas as cinco regiões do país experimentaram aumentos de taxa.
Nos últimos três anos, as autoridades tomaram medidas enérgicas contra a venda de analgésicos receitados, e os usuários se viram obrigados a recorrer ao Fentanil e à heroína, opioides mais baratos e muito mais potentes. O aumento acentuado nas mortes por overdose de drogas foi impulsionado justamente por um surto de Fentanil e de seu análogo sintético.
“A indústria farmacêutica fez potentes prescrições de opioides, promoveu-as pesadamente aos médicos, que prescreveram esses medicamentos para quem desejasse, enquanto as farmácias davam avisos insuficientes aos pacientes”, disse ao Correio Richard Blondell, médico especialista em abuso de drogas, professor da Universidade de Buffalo, de Nova York.
“Eventualmente, os pacientes dependentes se voltaram para fontes ilegais de seus medicamentos, enquanto os produtores de drogas ilegais de fora dos EUA, como os cultivadores de coca na América do Sul e os produtores de ópio na Ásia Central, consideram o mercado americano extremamente lucrativo”, acrescentou.

Prescrição

Para a psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química e doutoranda do Centro de Estudos em Álcool e Drogas (CPAD) da Universidade Federal do Estado do Rio Grande do Sul (UFRS), as autoridades americanas, no momento, estão envolvidas com o desafio de fazer uma ampla revisão dos protocolos de manejo da dor. Segundo ela, nos últimos anos se consolidou nos EUA uma cultura médica baseada na aplicação de analgésicos mais potentes nas etapas iniciais dos tratamentos, independentemente da gravidade da dor.
“O ideal seria iniciar o tratamento com um medicamento adequado ao nível da dor, para depois passar para um mais potente, como o Fentanil, se for o caso”, disse a especialista. Ela acrescenta que muitos médicos americanos se sentem à vontade para prescrever opioides por acreditarem que pacientes que nunca usaram drogas ilícitas não se tornarão dependentes. “Há um grande preconceito nessa questão, sem qualquer fundamento. Uma pessoa que nunca usou drogas ilícitas pode muito bem desenvolver dependência de opioides nos primeiros 15 ou 30 dias de uso, apresentando, inclusive, graves sintomas de abstinência”, disse a psiquiatra.
A expressiva mortalidade por overdose nos EUA tem levado o governo americano a reforçar a pressão sobre países que são grandes produtores de drogas, como a Colômbia, maior fabricante mundial de cocaína. O novo presidente colombiano, o conservador Iván Duque, antes de tomar posse, foi instado por autoridades americanas, como o secretário de Estado, Mike Pompeo, a reforçar a repressão contra o cultivo da folha de coca, embora esse tipo de cultura não esteja necessariamente associado, no país, à produção de drogas ilícitas.
Especialistas observam, no entanto, que o nível de produção de entorpecentes é diretamente proporcional à demanda, e entendem que os EUA devem fazer o dever de casa, atuando para conter o abuso das drogas legais e ilegais.

Três perguntas para

João Armando de Castro Santos, psiquiatra especialista em dependência química do Instituto Castro e Santos
O que está por trás do expressivo aumento do consumo de opioides e das overdoses causadas por esse tipo de medicamento?
Nos Estados Unidos, onde há um problema de saúde pública muito sério relacionado aos opioides, boa parte do que explica isso é a facilidade cada vez maior em obter o medicamento, principalmente pelo fato de que há uma certa falta de controle da parte médica sobre a prescrição. Isso acontece muito nos EUA. Por exemplo, não há uma titulação da dor, ou seja: começar com um analgésico mais fraco até chegar aos analgésicos mais potentes, como os opioides. Agora, em se tratando de opioides ilícitos, nos EUA, a heroína quase assume um papel semelhante ao do crack no Brasil. Por isso, há essa grande epidemia. O problema nos EUA vem de muito tempo, mas está ligado a dois fatores: usar opioides demais para dor, em situações em que não é preciso, e o fácil acesso à heroína.
Existe um perfil específico das pessoas que se tornam dependentes desse tipo de medicamento?
Existem dois grandes grupos de consumidores de opioides: aqueles que começam usando o medicamento de forma indevida, em um tratamento médico, passam a fazer uso e se viciam; e aqueles que buscam opioides como a heroína, geralmente utilizada de forma recreativa. Mas o consumo que tem crescido nos EUA está muito relacionado a pessoas que começam tratamento médico e passam a ficar dependentes, perdendo o controle.
Uma sociedade altamente competitiva, como a americana, pode estar mais suscetível a esse tipo de dependência?
Nos EUA, além da pressão pelo sucesso, o alto consumo de opioides pode estar relacionado a uma baixa tolerância com a frustração, muito comum nas sociedades modernas, que não toleram, não esperam, buscam sempre uma resposta rápida para tudo. Esse imediatismo, de sempre querer um resultado muito rápido, contribui para isso. No caso dos opioides, esse imediatismo impede o paciente de começar o tratamento com uma medicação mais tranquila para depois ir para uma mais complexa. Há também a questão das comorbidades psiquiátricas, como a depressão. Toda comorbidade psiquiátrica predispõe naturalmente a qualquer dependência. Muitas vezes, o bem-estar causado por qualquer droga, não só os opioides, leva a fazer uso de qualquer substância que proporcione uma sensação de alívio, mesmo que momentâneo.
Fonte: Correio Braziliense