O que fazer quando os filhos se afastam

Pais se condicionam a pensar que seus desejos e vontades não importam, porque todos os sacrifícios devem ser feitos em nome da felicidade das crianças

Você ainda tem fresca na memória a imagem de seus filhos brincando à sua volta. Do abraço apertado com a vozinha falando aquele “te amo, mamãe”, que derretia seu coração e tornava tudo suportável. Agora isso se assemelha a um achado arqueológico, algo perdido num passado remoto. Ao telefonar, constata que aquela criança amorosa foi engolida por um adulto sempre ocupado que lhe dá alguns segundos antes de desligar. As visitas escasseiam, os almoços são protocolares. Há casos em que cessam de uma hora para a outra – restam as ligações… Fico feliz se você desconhece histórias com esse perfil, sorte sua.

Não me refiro, em hipótese alguma, a situações graves de maus-tratos e abandono. Esses filhos provavelmente vão alegar que estão sobrecarregados com o trabalho, com sua própria prole, com problemas no casamento (ou num novo relacionamento). Mesmo assim, o afastamento dói como uma punhalada. Claro que você os criou para o mundo, e não para ficarem na barra da sua saia. Além disso, o modelo familiar de almoços semanais na casa dos pais está se tornando raro e lamúrias não vão reverter esse quadro – na verdade, tornarão os encontros mais penosos. Não se dê por vencido/a: use as redes sociais a seu favor para acompanhar o dia a dia dos seus entes queridos. Se não consegue reunir a turma toda, tome a iniciativa e faça “recortes familiares”: uma visita aqui, um lanche ali, uma ida ao cinema com um neto, e assim por diante.

Há quem prefira abraçar uma espécie de subserviência para evitar o distanciamento: a pessoa fica disponível para aceitar qualquer pedido ou tarefa, sendo que às vezes recriminações substituem o “muito obrigado” que seria indispensável. É difícil admitir, mas somos treinados – as mulheres, principalmente – a nos controlarmos para sermos gentis, bacanas, e nunca fazer uma cena, ainda que não estejamos satisfeitos com a situação. Mães e pais também se condicionam a pensar que seus desejos e vontades não importam, porque todos os sacrifícios devem ser feitos em nome da felicidade das crianças. Some-se a isso o fato de não conseguirmos estabelecer limites na relação com os filhos, mesmo quando eles cometem erros. O resultado pode ser um relacionamento tóxico que vai ocupar seu tempo, mas sem irrigá-lo de afeto.

O bônus da longevidade embute o risco da solidão, por isso bato tanto na tecla da necessidade de termos nossos próprios interesses, atividades e amigos. Nossa trajetória é composta de diferentes papéis: não somos apenas pais e mães – e sempre há tempo para descobrir e desenvolver novas características e habilidades. Afinal, nosso bem-estar não pode depender da disponibilidade da agenda de filhos adultos.
Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro
Fonte: G1, Bem Estar