Relatório da OMS indica padrão de consumo de álcool pelas mulheres

Estima-se que 1,6% das brasileiras apresentem algum transtorno relacionado ao uso de álcool, seja por abuso ou dependência

O alcoolismo é uma doença crônica que atinge mais homens do que mulheres em todo o mundo. Mas o cenário passa por mudanças e, de acordo com profissionais do setor, isso precisa ser amplamente debatido e priorizado nas questões de saúde da população.

Segundo o Relatório Global sobre Álcool e Saúde 2018, da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 1,6% das brasileiras apresentem algum transtorno relacionado ao uso de álcool – abuso ou dependência (2016), demonstrando uma redução em relação a 2010, quando a prevalência estimada era de 3,2% entre as mulheres. O mesmo documento aponta que, no Brasil, a dependência do álcool atinge 0,5% das brasileiras.

Contudo, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) informa que, no mesmo período, houve um aumento no Beber Pesado Episódico (BPE), quando é ingerida uma grande quantidade de álcool em curto período de tempo, entre as brasileiras.

Em 2010, 5,2% entre mulheres reportaram o padrão, enquanto o índice subiu para 6,9% em 2016. O padrão de consumo está associado a diversos problemas agudos, como acidentes e violência.

Composição

É importante frisar, ainda, que as mulheres são mais vulneráveis aos efeitos do álcool do que os homens devido a diferenças na composição biológica entre os gêneros. Um dos motivos é a menor quantidade de água presente no corpo delas, o que faz com que a substância fique muito mais concentrada em seu organismo.

Além disso, elas também apresentam menores níveis das enzimas que metabolizam o álcool, demorando mais para eliminá-lo do organismo. Isso faz com que, quando consumidas as mesmas quantidades de bebidas alcoólicas que os homens, as mulheres apresentem níveis mais elevados de álcool no sangue e demorem mais tempo para metabolizá-lo – ou seja, os efeitos ocorrem mais rapidamente e tendem a ser mais duradouros.

Com isso, as mulheres têm maior probabilidade de apresentar problemas relacionados ao álcool (dependência e outros danos à saúde) com níveis de consumo mais baixos e/ou em idade mais precoce do que os homens. Em relação ao consumo entre universitárias, 16% das estudantes apresentam risco de moderado a alto de se tornarem dependentes.

Outro dado que tem chamado a atenção do CISA é o uso de álcool por meninas. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2015, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental (entre 13 e 15 anos), mostrou que tanto a experimentação quanto o consumo atual de bebidas alcoólicas, nos 30 dias que antecederam à pesquisa, foram maiores entre as meninas: 56,1% contra 54,8% (experimentação). Em relação ao consumo atual, os patamares foram, respectivamente, 25,1% e 22,5% para meninas e meninos.

Prevenção

A professora Zilá Sanches, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), participa ativamente dos Programas de Prevenção ao Uso de Drogas para Meninas. De acordo com a docente, as mulheres recorrem principalmente às drogas sintéticas por questões de ansiedade, depressão e transtornos alimentares.

“A principal forma de prevenir o uso abusivo de substâncias químicas é o vínculo familiar e estar atenta às amizades. Os adolescentes precisam de demonstrações de interesse, afeto, diálogo e permanecer atento aos amigos”, enfatiza a professora.

“Vivemos em uma sociedade ainda muito machista. Por isso, o tema deve ser priorizado. O alcoolismo entre mulheres aumenta e a escassez de discussões colabora com o estigma da enfermidade”, avalia Murilo Campos Batisti, presidente do Conselho Estadual Sobre Drogas (Coned).

Silvia Brasiliano, responsável pelo Programa da Mulher Dependente Química (Promud), estuda a evolução do uso do álcool e outras drogas e ressalta os malefícios do consumo de drogas (cocaína, crack e maconha) pelas mulheres durante a gravidez, além da possível perda da guarda dos filhos como uma das consequências.

“A maternidade é um fator fundamental para as mulheres procurarem tratamento. Muitas recorrem às drogas por desemprego, abuso sexual e abandono. É necessário que a cidadã, neste período em que está mais sensível, seja auxiliada por profissionais como psiquiatras e assistentes sociais”, afirma.

Lei Antiálcool

Desde que a Lei Antiálcool para menores entrou em vigor, em novembro de 2011, até dezembro de 2018, o Estado de São Paulo realizou 1,4 milhões de inspeções e 2,9 mil autuações. Apenas na região do Litoral Norte, foram 24 mil inspeções e 36 autuações.

“Ao longo do tempo, a Lei Antiálcool paulista atuou como uma importante ferramenta para inibir o consumo de álcool pelos jovens”, enfatiza Maria Cristina Megid, diretora da Vigilância Sanitária Estadual.

Independentemente do gênero, o debate aberto sobre o assunto contribui para que haja uma disseminação das mensagens e reflexões por parte da sociedade em geral em relação ao tema, tão delicado e pungente.

“Ser dependente é estar sempre em vigilância. Um dia de cada vez. É necessário que os espaços para falar dos problemas específicos das mulheres sejam cada vez mais ampliados”, ressalta a socióloga Marta Reis.

Fonte: Governo do Estado de São Paulo