PR gasta R$ 13 mi com internações pelo consumo de álcool

Pesquisa da Cisa aponta que em 2017 Estado foi o quarto em número de pessoas internadas

O brasileiro consome, em média, três doses de bebida alcoólica por dia. É o que aponta o estudo “Álcool e a saúde dos brasileiros” publicado pelo Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool). A Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), com sede em São Paulo, reuniu indicadores nacionais para traçar o perfil dos usuários, os impactos na sociedade e os desafios do poder público para conter o consumo nocivo.

Cada dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja de 350 ml, a uma taça de vinho de 150 ml ou a 45 ml de uma dose de bebida destilada. O exagero, porém, resultou em mais de 268 mil internações em todo o país (parcial ou totalmente atribuíveis ao álcool) no ano de 2017, o que representou uma a cada 50 internações hospitalares. O custo estimado apenas para atendimentos de casos totalmente atribuíveis à bebida alcoólica foi de R$ 109 milhões.

O brasileiro consome, em média, três doses de bebida alcoólica por dia. É o que aponta o estudo “Álcool e a saúde dos brasileiros” publicado pelo Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool). A Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), com sede em São Paulo, reuniu indicadores nacionais para traçar o perfil dos usuários, os impactos na sociedade e os desafios do poder público para conter o consumo nocivo.

Cada dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja de 350 ml, a uma taça de vinho de 150 ml ou a 45 ml de uma dose de bebida destilada. O exagero, porém, resultou em mais de 268 mil internações em todo o país (parcial ou totalmente atribuíveis ao álcool) no ano de 2017, o que representou uma a cada 50 internações hospitalares. O custo estimado apenas para atendimentos de casos totalmente atribuíveis à bebida alcoólica foi de R$ 109 milhões.

No Paraná, as internações ocasionadas pelo consumo de bebida alcoólica custaram R$ 13,9 milhões em 2017. No mesmo ano, a pesquisa aponta que o Estado foi o quarto em número de pessoas internadas que apresentaram consequências pelo consumo exagerado. São Paulo (72.162), Minas Gerais (31.318) e Rio Grande do Sul (21.896) ocuparam as primeiras posições. O Paraná registrou 20.150 internações.

O consumo abusivo de bebida alcoólica é reconhecido como problema de saúde pública pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e está entre as principais causas de mortes evitáveis. A coordenadora do Cisa, Erica Rosanna Siu, ressalta que, além de doenças, consequências a curto prazo como situações de violência e acidentes de trânsito também são consideradas na pesquisa.

Entre os resultados positivos, Siu destaca a diminuição do consumo de álcool no Brasil, a queda nas taxas de transtorno por uso de álcool, a lei seca e a criminalização da venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos.

CONSUMO NOCIVO

Porém, apesar da redução no consumo, o índice BPE (Beber Pesado Episódico) aumentou de forma expressiva de 12,7% (em 2010) para 19,4% (em 2016). “O BPE é o padrão do consumo nocivo e equivale a quatro ou mais doses para mulheres e cinco ou mais doses para homens em um curto intervalo de tempo. […] O consumo de álcool é influenciado por diversos fatores desde sexo, peso, altura, idade e vulnerabilidade genética. Também há variáveis relacionadas ao contexto do consumo como a motivação, o local, o ambiente e a companhia. Outros fatores externos também influenciam como o local onde a pessoa mora, a legislação e situações socioeconômicas. Não é uma questão simples”, explica.

MULHERES E IDOSOS

Ao considerar apenas as mulheres, o BPE aumentou de 5,2% para 6,9%. “As mulheres são mais sensíveis aos efeitos da bebida que os homens. Temos menos enzimas que degradam o álcool. Isso nos alerta para um futuro negativo”, aponta.

Em relação ao consumo entre adolescentes, pouco mais da metade (56%) que frequentava o 9º ano do ensino fundamental já havia experimentado bebida alcoólica em 2015. Outros 21% relataram episódios de embriaguez.

“Houve aumento também na proporção de internações e óbitos de idosos relacionados ao álcool, entre 2010 e 2016. Chama a atenção pelo fato dessa população, em geral, apresentar outras doenças que podem ser agravadas pela bebida ou pelo uso de medicamentos que podem interagir com o álcool”, alerta.

A pesquisa divulgada pelo Cisa reúne dados de 2010 a 2017 do Ministério da Saúde, da OMS, da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A meta da OMS é diminuir o consumo mundial em, pelo menos, 10% até 2025.

“Tem o fator cultural que é importante. Muitas vezes o consumo de álcool é percebido de uma forma natural, mas um dos dados aponta que apenas 40% da população brasileira bebe. Não é todo mundo. É importante trazer essa informação à tona para não somente conscientizar sobre os efeitos do álcool, mas começar a identificar padrões que são mais nocivos e repercussões que isso pode trazer para a sociedade como um todo”, finaliza.

‘Eu acordava e tomava pinga’

Foi em uma festa em família que o professor B.M., 41, teve o primeiro contato com a bebida alcoólica. “Era tradição beber e comemorar estimulando o consumo como algo natural e um ritual de passagem mesmo. Isso aos 11 ou 12 anos”, conta. O incentivo partiu de primos mais velhos com o apoio dos parentes.

O consumo aumentou com o passar dos anos e se tornou uma espécie de muleta já na adolescência. Tímido, B.M. percebeu que o álcool gerava autoconfiança e o deixava mais extrovertido. Agora, além da cerveja, destilados também faziam parte das comemorações.

O menino do interior de São Paulo mudou de cidade ao passar no vestibular e foi apresentado a outras drogas ilícitas. “Foi aí que comecei o meu processo de autodestruição”, detalha. Maconha, cocaína, crack e drogas sintéticas, potencializados pelo álcool, transformaram o estudante que passou a perder aulas com frequência, se afastar dos amigos e apresentar sintomas de depressão e ansiedade. “Eu acordava e tomava pinga”, confessa. “É uma doença progressiva. A necessidade de consumir é cada vez maior.”

Após pedir ajuda à mãe, B.M. passou por quatro internações, mas não conseguiu abandonar os vícios. Ela faleceu em 2012. “Quando soube que ela estava no hospital, não fui visitá-la de imediato. Fui para uma biqueira comprar cocaína. Cheguei a esse ponto. Não soube lidar com a notícia. Não consegui chorar no velório e no enterro porque estava sob o efeito da cocaína e de sedativos que minha irmã me fez tomar para tentar diminuir o efeito da droga. Eu não vivi o luto. Isso me marcou muito.”

O professor buscou ajuda em um grupo de AA (Alcoólicos Anônimos). Evitou lugares, pessoas e antigos hábitos, mas sofreu uma recaída. Bebeu e usou drogas por dois dias seguidos até se desequilibrar, bater a cabeça no chão e ser internado em um hospital. Desde então, agora com uma cicatriz na testa, ele está há cinco anos sem consumir álcool e drogas. B.M. retomou os estudos e concluiu mestrado.

“A dependência química, de uma forma geral, está associada a uma condição estigmatizante. O usuário é visto como vagabundo, como fraco. As pessoas não entendem que é uma questão de saúde pública. O alcoolismo não tem cura, mas tem como estabilizar. Hoje faltam políticas públicas voltadas para a prevenção. Isso deveria ser feito com investimentos em arte, cultura, lazer e esporte. Falta um debate amplo sem tabus. O acesso a bebida é muito fácil. O alcoolismo é uma doença crônica progressiva e ainda há muita desinformação.”

Quando é preciso buscar ajuda

O consumo nocivo de álcool acentua doenças mentais, doenças clínicas e é associado a causas de morte violenta como homicídios, suicídios e acidentes de trânsito. A psiquiatra da equipe de coordenação de Saúde Mental da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), Maristela Sousa, afirma que é possível classificar essa relação de consumo.

“Há o uso social ou recreativo, quando a pessoa faz o uso, mas não apresenta prejuízos ou problemas e não há uma dependência. Há o uso nocivo ou prejudicial em que a pessoa faz o consumo da substância e, por causa do consumo, apresenta prejuízos físicos, sociais, financeiros, familiares ou se envolve em um acidente, por exemplo. E há também a dependência.”

TESTE SIMPLES

Conforme a psiquiatra, um teste simples ajuda a identificar sinais de dependência do álcool ou de outras drogas. “É um teste com quatro perguntas que se chama CAGE (sigla em inglês formada pelas palavras-chave das perguntas). Essas perguntas são: Enfrenta dificuldades para cortar o consumo (“Cut down”)? Já se sentiu incomodado ou irritado com pessoas que criticaram o consumo (“Annoyed”)? Já se sentiu culpado por consumir (“Guilty”)? Sente a necessidade de beber ao acordar (“Eye-opener”)? Se a pessoa dá uma resposta positiva para uma dessas quatro perguntas, isso é um forte indício de que ela já desenvolveu dependência”, detalha.

O consumo do álcool, segundo Sousa, tem contribuído para aumentar índices de esquizofrenia, ansiedade e depressão. A demora na identificação da dependência e na busca pelo tratamento são preocupantes. “Uma pesquisa realizada na Espanha e publicada em 2016 demonstrou que as pessoas levam, em média, dez anos para procurar tratamento quando têm a dependência alcoólica instalada. Apenas 16,9% buscam ajuda”, relata.

“As pessoas até não têm vergonha de dizer que consomem bebida alcoólica, mas elas têm vergonha de procurar tratamento. Às vezes, elas têm medo de ter que deixar de beber. Há ainda a dificuldade de acesso ao tratamento e de encontrar profissionais habilitados e capacitados para reconhecer o problema”, complementa.

A orientação é que as pessoas procurem as unidades básicas de saúde ou a Rede de Atenção à Saúde Mental composta por 143 CapS (Centros de Atenção Psicossocial), 52 ambulatórios, 13 hospitais psiquiátricos e 21 leitos em hospitais gerais.

ESCUTA QUALIFICADA

Em Londrina, a equipe do Caps AD (Álcool e Drogas) realiza escuta qualificada para avaliar a situação de cada paciente e elaborar um plano terapêutico para o tratamento. Várias atividades são ofertadas como terapia ocupacional, exercícios físicos, passeios e atendimento familiar. A enfermeira e coordenadora da unidade, Karine Ferreira, frisa que também é importante que a pessoa queira ser ajudada.

“O nosso trabalho é fazer com que essa pessoa entenda o que está acontecendo com ela e tome atitudes em relação a própria vida. O principal é que ela tome decisões por conta própria. Nós direcionamos, mas a recuperação depende do próprio paciente. Não temos fórmula mágica e a sociedade precisa entender que é um papel de todos buscar essa mudança de cultura em relação ao consumo de álcool. Precisamos debater cada vez mais esse problema de saúde pública”, conclui a enfermeira.

SERVIÇO

– O Caps AD Londrina fica na rua Alberto Preto, 75, no conjunto Milton Gavetti; e atende das 7h30 às 18h, de segunda a sexta-feira. A equipe não realiza triagem de novos casos nas quartas-feiras à tarde e nas quintas-feiras pela manhã. Mais informações pelo telefone (43) 3379-0877.

–  Há seis grupos de Alcoólicos Anônimos em Londrina. Para mais informações entre em contato pelo telefone (43) 3326-3224.

Fonte: Folha de Londrina