Brasil é mais conservador que média global na legalização da maconha

Pesquisa indica que país é mais refratário tanto para uso medicinal como recreativo

Henrique Gomes Batista

SÃO PAULO — Uma pesquisa do instituto Ipsos realizada em 29 países indica que os brasileiros estão entre os mais conservadores quando o assunto é legalização da maconha , tanto de uso medicinal como de recreativo.

De acordo com  levantamento “Visão Global sobre os Vícios 2019” (“Global Views on Vices 2019”) 54% dos brasileiros acreditam que a maconha medicinal deveria ser legalizada no país, abaixo da média global de 57%. Já para o uso recreativo , apenas 24% apoiam a legalização, contra 26% da média global.

Há menos brasileiros que aceitam a legalização da maconha medicinal que nos países vizinhos. Enquanto 54% brasileiros defendem essa regulamentação, no Chile o percentual é de 76%, na Argentina é de 73%, no México 69% e no Peru, 64%.

No caso do uso recreativo, o patamar de apoio à legalização no Brasil (24%) só é superior, na região, ao registrado no Peru (14%), porém abaixo de Chile (39%), México (32%) e Argentina (32%). No total,  57% dos brasileiros dizem que o consumo moderado de maconha não é moralmente aceitável, contra 25% dos que concordam com essa afirmação no Canadá e nos Estados Unidos, por exemplo.

— O Brasil é um país conservador em seus costumes. Sua opiniões se aproximam a respostas obtidas em países mais restritivos, como Malásia e Hungria — disse Priscilla Branco, gerente de opinião pública da Ipsos. — Na Argentina, por exemplo, historicamente as pautas progressistas avançam de forma mais rápida. E o Brasil vive um momento de polarização política que ficou evidente com o debate eleitoral.

O levantamento foi realizado com 8.638 pessoas de 29 países, entre eles França, Alemanha, Índia, África do Sul e Coreia do Sul, de todos os continentes. No Brasil foram mil entrevistas, realizadas em dezembro de 2018.

— De maneira geral, o brasileiro apresenta mais restrições morais às atividades pesquisadas, como uso de maconha, pornografia e jogos de videogame violentos. Em um país cuja percepção estereotípica é permissiva, esse dado é bastante relevante. Há uma tendência de julgamentos morais alta que, muitas vezes, impede debates posteriores, como o interesse público — explica Marcos Calliari, presidente da Ipsos no Brasil.

Para ele, o estudo ajuda a entender a real dinâmica não apenas sobre maconha, mas questões como jogos, pornografia, redes sociais, cigarro, bebidas, aplicativos de paquera e até alimentos como chocolate.

— A percepção de que há uma tendência global de maior tolerância com relação a comportamentos mais liberais não se verifica na pesquisa. Muitas das atividades potencialmente viciantes ainda são vistas com grande desconfiança pela população. O Brasil, na maioria dos casos, acompanha a média tendencialmente mais conservadora. Isso ajuda a explicar dois movimentos sociais que se verificam claramente na atualidade: resgate político de movimentos conservadores e extremismo de opiniões — disse Calliari.

Enquanto na Suécia 69% acreditam que é socialmente aceitável aplicativos de paquera, no Brasil isso é aceito para 44%, abaixo da média mundial (46%) e próximo da Índia (38%). O estudo também mostra outros vícios e como é a aceitação de cada um deles. O consumo de videogames violentos não é moralmente aceito por 46% dos entrevistados no mundo. No Brasil, o índice é de 41%.

A pesquisa também perguntou sobre redes sociais: 65% dos entrevistados do Brasil afirmam que seu uso moderado é moralmente aceitável, mesmo percentual da média mundial. Porém 30% dos brasileiros afirmaram que apenas maiores de 18 anos devem ter acesso à redes, e outros 12% acreditam que a permissão deveria começar com 21 anos.

Fonte: O Globo