Ressaca é doença? Médicos discutem decisão da justiça alemã

A dor de cabeça, dor nos olhos e o enjoo da famosa ressaca, que acontece depois do consumo excessivo de álcool “é doença”, segundo a justiça alemã. A decisão foi decretada contra uma empresa que vendia doses de remédios antirressaca e pó para misturar com água prometendo eliminar os efeitos do mal-estar.

Mas, para os juízes alemães da Corte Superior Regional de Frankfurt, as “informações sobre um produto alimentício não podem atribuir propriedades para prevenir, tratar ou curar uma doença humana ou dar a impressão de ter tal propriedade”.

Os magistrados ainda concluíram que se deve entender como doença até “mesmo um pequeno e temporário transtorno do estado normal ou das atividades do corpo”, justamente, como acontece com a ressaca no corpo humano. As dores e o enjoo são resultado da desidratação provocada pelo álcool no organismo e pelo excesso da carga de trabalho do fígado para eliminar a substância da corrente sanguínea. O álcool é diurético e potencializa a quantidade de vezes que a pessoa urina, levando a desidratação e o aumento da substância no sangue.

Mas ressaca é mesmo doença?

A decisão da justiça alemã rodou o mundo e causou muita polêmica e controvérsia. Afinal, seria mesmo a ressaca uma doença? O Yahoo Brasil foi atrás de respostas para essa questão. A cientista Debbie Shawcross, que estuda hepatologia e insuficiência hepática crônica na universidade King’s College, em Londres, referendou a decisão da justiça alemã. “Do ponto de vista científico como uma hepatologista que cuida de muitos pacientes com doença hepática relacionada ao álcool, eu consideraria que ressaca é uma doença, consequência dos efeitos colaterais físicos e metabólicos que o excesso de álcool impõe ao corpo”, disse ela.

Analisando ainda mais profundamente os efeitos no corpo humano, a professora Debbie explicou que, na mistura do álcool, há um subproduto chamado acetaldeído, que pode ser entre 10 e 30 vezes mais tóxico do que o próprio álcool. O acetaldeído é responsável por fazer aumentar o suor e a temperatura corporal levando à náusea e o vômito. No processo de desidratação causado pelo álcool, as células encolhem, incluindo as que revestem o cérebro, levando à dor de cabeça. O álcool também muda o nível de hormônios importantes no cérebro como a serotonina e a dopamina pendendo resultar em baixo humor, irritabilidade e instabilidade emocional. A bebida também é capaz de liberar substâncias que causam inflamação no sangue, fadiga, dores musculares, dor de cabeça e náusea.

Um dos maiores pesquisadores de doenças hepáticas e nutrição do mundo, o Doutor Nathan Davies, professor da University College London, afirmou que o acetaldeído além de tóxico também é cancerígeno. “E como tal, o organismo tentará limpá-lo do sistema e usará todos os seus recursos para eliminar essa substância o mais rápido possível, inclusive, utilizando partes do sistema de defesa do corpo”, explicou.

O álcool em excesso e seus danos (Foto: Getty Images)

O pesquisador também faz um alerta importante. Segundo ele, estudos têm mostrado que o repetido consumo excessivo de álcool está ligado a danos no fígado, aumento do risco de câncer e uma outra série de efeitos prejudicais ao corpo, já que abuso do álcool leva à ativação desnecessária do sistema de defesa do organismo, o que não é recomendado. A cientista Debbie Shawcross também lembra que o excesso de álcool não só prejudica a saúde de indivíduos saudáveis, como também agrava a condição de pacientes que sofrem de inflamações no fígado com doenças hepáticas crônicas.

Apesar de todos os efeitos negativos que o álcool pode causar, se você abusou da bebida, Debbie indica: “Beber muita água irá aliviar os efeitos colaterais da ressaca e eu não conheço nenhuma evidência científica de que os tônicos ou remédios antirressaca são eficazes”. Já Nathan Davies é mais pragmático. “A ressaca lembra o consumo de comida estragada, a diferença é que ela pode ser sempre evitada. No geral, beber até o ponto em que a ressaca pode acontecer não é uma boa ideia em nenhuma circunstância”, finalizou o pesquisador.

Já que é doença… posso não ir trabalhar?

Após a decisão da justiça alemã, que aconteceu dias depois do início da Oktoberfest em Munique, muitos viram a oportunidade e a desculpa perfeita para apresentar atestados para não ir à escola, trabalho ou algum compromisso. Nas redes sociais, os internautas gostaram tanto da novidade e cogitaram até a mudança para a Alemanha.

O fato de a ressaca estar na pauta do judiciário alemão também chamou atenção mundo afora, mas o advogado brasileiro Felipe Tirado, que é doutorando em direito na universidade King’s College, em Londres, explica que na Alemanha ocorreu o fenômeno da ampliação dos direitos dos indivíduos em decisões judiciais. “Por exemplo, a corte constitucional alemã garantiu o direito de alimentar pombos no parque e o direito de caminhar nas florestas”, conta Tirado.

Embora as decisões tenham sido mais focadas nos cidadãos, o advogado brasileiro acredita que a ressaca ser declarada como doença não abre um precedente. “Para ser um precedente, teria que ter sido decidido por uma corte superior ou por uma corte constitucional, o que não foi. Foi a decisão de um juiz de primeira instância. Então, começou a ter uma interpretação nesse sentido”, afirmou Felipe Tirado.

Quem já estava gostado da ideia de apresentar o atestado médico para faltar ao trabalho, pode começar a mudar de ideia. O doutorando brasileiro acredita que, dificilmente, essa desculpa será válida. “Até porque se as pessoas começarem a faltar demais, os empregadores vão, possivelmente, trazer essas questões e as faltas ao judiciário também”, concluiu.

E se fosse no Brasil?

Até o momento, não há uma interpretação como a da justiça alemã no Brasil. E se houvesse? Não serviria como desculpas, pelo menos para o representante de destinos turísticos, Vitor Moura, de 25 anos. O paulistano é frequentador de bares da capital paulista, chega a ir de duas a três vezes na semana. Ele considera a ressaca uma doença, mas com o bom-senso não abusaria da questão. “Agora, nós sabemos que o bom-senso está em falta nos dias de hoje. Então, não duvido que aumentaria o consumo de bebidas e a quantidade de pessoas que usariam um atestado médico por causa disso”, disse o jovem.

A questão do consumo de álcool merece muita atenção no Brasil, especialmente, na formulação integrada de políticas públicas. Segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), em seis anos, o consumo médio per capta de álcool entre os brasileiros diminuiu de 8,8 L para 7,8L. O dado significa que, em média, cada brasileiro acima de 15 anos deixou de beber cerca de uma dose por semana. Por outro lado, a média de consumo diário de álcool dos brasileiros é alta, de 3 doses. O número é cerca de 27% maior do que nas Américas e no mundo (2,3 doses). Há ainda um fator mais alarmante. De acordo com o Ministério da Saúde, de 2011 a 2017, aumentou em 16% o número de brasileiros que admitiram beber álcool e dirigir.

Por Renan Souza
Fonte: Yahoo