Abuso de álcool e violência doméstica em tempos de pandemia

Com as pessoas ficando mais em casa nas últimas semanas, alerta-se para o aumento de violência doméstica e o consumo nocivo de álcool como um fator de risco para esse tipo de agressão.

A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou recentemente, em abril, um apelo global para a proteção de mulheres e crianças, principais vítimas de violência doméstica, especialmente em tempos de pandemia1. Mesmo antes do início dos pedidos de isolamento social para se evitar maior contágio de COVID-19, a ONU estima que um terço das mulheres ao redor do mundo já haviam sofrido algum tipo de violência, variando de 25% das mulheres nos Estados Unidos até 65% das mulheres nas regiões da África subsaariana.

A ONU relata que vários países estão vendo um aumento alarmante no número de procura por ajuda relacionada à violência doméstica. Países como o Líbano e a Malásia viram o número de ligações para linhas de ajuda dobrarem no período de pandemia, em comparação ao mesmo mês de 2019. Na China, a procura triplicou. Na Austrália, sites de procura (como o Google) viram a maior magnitude dos últimos cinco anos em pesquisa por ajuda no caso de violência doméstica.

Além do aumento dos relatos de violência doméstica, a ONU alerta que, conforme a pandemia se espalha, menor será a quantidade de informação e dados disponíveis, e tanto maior será a vulnerabilidade das mulheres e crianças, dado que os sistemas de saúde dos países tenderão a estar cada vez mais lotados. Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora executiva da ONU mulheres, relata que a violência doméstica já é altamente subnotificada, e estima-se que menos de 40% das mulheres que sofrem violência procuram ajuda. Nesse sentido, ela reforça que o período de pandemia é um contexto perfeito para “comportamento violento atrás das portas fechadas”.

Dados do governo brasileiro apontam um aumento de 9% no volume de denúncias recebidas através do Disque 180, referentes à violência doméstica, na semana de 17 a 25 de março de 2020, comparado com a semana anterior. No Rio de Janeiro, houve um aumento de 50% de denúncias, quando comparado com o mesmo período de 20192.

Ressalta-se que a violência doméstica é um fenômeno complexo, resultado de muitos fatores culturais, sociais, econômicos e individuais. Entre eles, o consumo nocivo de álcool figura como um importante fator de risco para agressões, dado que a substância pode propiciar impulsos agressivos e a perda de controle sobre o comportamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu Relatório Global sobre Saúde e Álcool de 20183, aponta que o consumo nocivo de álcool está relacionado a cerca de 18% dos casos de violência doméstica. Diante desse cenário, a OMS enfatiza a necessidade de campanhas que aumentem a compreensão da população acerca dos malefícios do consumo nocivo de álcool3.

Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool