Por que controlar o consumo de álcool durante a quarentena?

Por Arthur Guerra.

Gerenciamento da ingestão de bebidas deve ser seguido no pós-pandemia.

Vivemos tempos atípicos em decorrência da COVID-19 e a mudança de rotina dá margem a excessos: comer mais, dormir menos, trabalhar mais ou exercitar-se menos. O consumo de álcool permeia essa nova realidade e a possibilidade de que algumas pessoas estejam bebendo de forma exagerada, em relação aos padrões anteriores, é preocupante. Nesse cenário, controlar a ingestão de bebida alcoólica é um passo importante que contribuirá para a saúde física e mental, algo relevante para esse momento especial que estamos vivendo. Por isso, lançar mão de estratégias para beber de uma forma menos arriscada à saúde é uma medida importante e que deve ser seguida no pós-pandemia.

Antes, é preciso esclarecer que, para a Organização Mundial de Saúde, nenhuma quantidade de álcool é considerada absolutamente segura para a saúde. Ainda há determinadas situações em que qualquer quantidade de álcool é inaceitável, como para menores de 18 anos, gestantes, quem vai dirigir veículos automotores, faz uso de medicamento que interage com a substância ou tem alguma condição de saúde que pode ser agravada pelo álcool. Para quem está fora dessas condições e decide beber, há diretrizes de consumo de baixo risco, ou seja, limites que minimizam o desenvolvimento de problemas de saúde a curto e longo prazo associados ao álcool.

Segundo o NIAAA – National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, referência no tema, esses limites são: para mulheres e pessoas acima de 65 anos, não mais que 3 doses em um único dia, sem ultrapassar 7 doses na semana; para homens, máximo de 4 doses em um único dia e não exceder 14 doses na semana. Vale a explicação que uma dose padrão de álcool corresponde a 350 mL de cerveja, 150 mL de vinho ou 45 mL de destilado. Esse é um parâmetro recomendado, mas é preciso reforçar que não é uma regra para todos, pois os efeitos do álcool variam bastante de pessoa para pessoa.

Para descobrir se você está dentro desses limites ou se desconfia que está bebendo mais do que costumava, nos dias em que decidir beber, registre quantas doses consome, e em quanto tempo. Você pode usar um calendário, agenda ou aplicativos móveis. Parar e anotar cada dose pode ajudar a desacelerar quando necessário. Controlar a velocidade do consumo também é válido – quanto mais rápido a pessoa bebe, maiores os riscos. Uma medida eficaz nesse sentido é intercalar o consumo de bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Se você escolher água, melhor ainda!

A partir desses registros, veja se costuma ultrapassar os limites de consumo. Se sim, estratégias para controlar o quanto bebe são fundamentais e precisam ser usadas consistentemente. Além de continuar a contar as doses ingeridas, estabeleça o quanto e quando vai beber e fique sem beber alguns dias da semana.

Identificar os motivos e gatilhos que o levam a beber também contribui nesse processo. Padrões de consumo nocivos estão associados ao enfrentamento de problemas e sentimentos negativos (dor, tristeza, frustração e ansiedade). Reconhecer o que desperta sua vontade de beber permitirá que busque alternativas para lidar com essas questões, como contar com o apoio da família e amigos ou ocupar o tempo livre com atividades saudáveis e livres de álcool.

Vale lembrar que o grau de dificuldade para reduzir o consumo de álcool ou parar de beber dependerá das características pessoais do indivíduo, da quantidade de bebida que costuma ingerir e se já apresenta complicações de ordem emocional, física ou interpessoal decorrentes desse uso. Diante dessa complexidade, se tiver problemas em reduzir ou controlar seu consumo, procure seu médico de confiança ou um psicólogo para uma avaliação detalhada.

O momento atual exige esse olhar cuidadoso para nossos hábitos e como eles contribuem para nossa saúde física e mental – algo, inclusive, que será essencial para enfrentar o novo mundo pós-pandemia. Reflita e faça escolhas mais conscientes e saudáveis para sua vida!

  • Autor(es):Arthur Guerra, psiquiatra e Presidente Executivo do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool

Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool