COVID-19: a rotina do confinamento tem influenciado seu consumo de álcool?

Atenção para a quantidade e frequência que tem ingerido bebidas alcoólicas

Das infinitas dicas para lidarmos melhor com esse período de confinamento devido ao coronavírus, uma é recorrente: criar uma rotina – seja uma rotina de trabalho, do lar e/ou de estudos (dos filhos ou nossos próprios). Nessa empreitada, cada família vai se adaptando à nova e dura realidade do isolamento. Além de lidar com as atividades propriamente ditas, há ainda a sobrecarga mental que a situação provoca. A preocupação não se restringe ao coronavírus e às medidas de prevenção como lavar as mãos com frequência e manter-se sem contato físico. Ela engloba o estado de saúde de familiares, amigos e conhecidos, acompanhar as notícias (filtrando as milhares de fake news) e planejar e (tentar) seguir a tal da rotina.

No meio disso tudo, percebo nos grupos de mães algo crescente: o consumo de bebidas alcoólicas como mais uma “atividade” dentro dessa rotina exaustiva que temos enfrentado. Ele pode acabar entrando mesmo sem perceberem – seja no fim do expediente de home office, seja depois que as crianças dormem e você (finalmente) tem algumas horas para você mesma…

Cabe ressaltar que o intuito desse texto não é o de julgar o comportamento de ninguém – aliás, sei que, para muitas, a maternidade ensina a não julgar as atitudes dos outros. Mas, neste momento, é importante alertar para esse consumo de bebidas alcoólicas  – especialmente aquele que excede o que chamamos de “moderado”. Não é raro que se use o álcool como uma maneira de lidar com os problemas, ou até como uma “recompensa” ou forma de relaxar após um dia exaustivo. No entanto, temos que lembrar que os problemas continuarão lá, bebendo ou não, e que a atualidade impõe que praticamente todos os dias sejam exaustivos. E se o consumo passar a ser diário, excessivo, a chance desse hábito se tornar outro problema é grande. Inclusive, este é um dos pontos reforçados no guia de cuidados para saúde mental durante a pandemia da OMS: “evite formas errôneas de lidar com o estresse como o uso de tabaco, álcool ou outras drogas. A longo prazo, eles pioram o seu bem-estar físico e mental.”

Mas, como lidar com tudo isso e ainda controlar o consumo de álcool? Primeiramente, é interessante prestar atenção não somente à quantidade que tem bebido, mas também à frequência do consumo. Segundo o NIAAA – National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, referência no tema, os limites de consumo de baixo risco são: para mulheres e pessoas acima de 65 anos, não mais que 3 doses* em um único dia, sem ultrapassar 7 doses na semana; para homens, não mais que 4 doses em um único dia, sem ultrapassar 14 doses na semana. Colocados tais limites, é também preciso explicitar as condições de “álcool zero” – nas quais recomenda-se que nenhuma quantidade de álcool seja ingerida, como para menores de 18 anos, grávidas, pessoas com condições de saúde que podem ser prejudicadas pelo álcool ou que não consigam controlar seu consumo, ao usar determinados medicamentos e ao dirigir veículos automotores.

Se perceber que está ultrapassando os limites e não está conseguindo lidar com a situação, é a hora de reforçar seus laços afetivos e redes de apoio. Converse mais com os amigos, crie momentos com a família que sejam prazerosos, faça coisas que possam ocupar e relaxar a mente. Esteja atenta a seus sentimentos e demandas internas. Envolva-se com atividades saudáveis e saiba que exercício constante, sono regular e dieta balanceada ajudam. Caso seu consumo de bebidas alcoólicas esteja influenciando negativamente sua saúde, relações interpessoais, profissionais ou acadêmicas, busque ajuda profissional. Um médico clínico geral ou psiquiatra podem realizar uma avaliação diagnóstica detalhada e auxiliar para que o tratamento mais adequado seja instituído. Outra referência de apoio mútuo é a irmandade de Alcoólicos Anônimos, que tem realizado reuniões virtuais diariamente entre aqueles que querem parar de beber.

Não hesite em dividir as dificuldades, ou, ao contrário, se sentir que um familiar ou amigo precisa de ajuda, ofereça apoio. Todos estamos vivendo esse momento de enfrentamento da pandemia, e passar por isso unidos tornará a jornada mais leve!

* 1 dose padrão equivale a 14 g de álcool puro, o que corresponde a 350 mL de cerveja (5% de álcool), 150 mL de vinho (12% de álcool) ou 45 mL de destilado (vodca, uísque, cachaça, gin, tequila, com 40% de álcool).

  • Autor(es):Dra. Erica R. Siu – Biomédica e especialista em dependência química, Coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).

Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool