Impactos do álcool na saúde da mulher

Como as bebidas alcoólicas impactam na saúde feminina? Confira as informações que o CISA selecionou sobre o tema.

Primeiramente, é importante ressaltar que as mulheres enfrentam riscos particulares à saúde decorrentes do uso de álcool, sendo mais vulneráveis aos efeitos dessa substância devido a diferenças em composição biológica. Em comparação aos homens, elas têm relativamente menos água (o que faz com que o álcool fique mais concentrado), geralmente pesam menos e possuem níveis menores de enzimas responsáveis pelo metabolismo do álcool.

Isso faz com que, quando consumidas as mesmas quantidades de bebidas alcoólicas que os homens, elas apresentem níveis mais elevados de álcool no sangue e demorem mais tempo para metabolizá-lo, ou seja, os efeitos ocorrem mais rapidamente e tendem a ser mais duradouros. Com isso, elas têm maior probabilidade de ter problemas relacionados ao álcool com níveis de consumo mais baixos e/ou em idade mais precoce do que os homens. Isso é um fenômeno conhecido como efeito telescópico (1,2).

Informações sobre as potenciais consequências negativas do álcool para a saúde e outros aspectos relacionados à saúde feminina estão listados abaixo.

Transtornos relacionados ao uso de álcool

Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde – OMS (3), 1,6% das mulheres brasileiras com 15 anos ou mais apresentam algum transtorno relacionado ao uso de álcool, sendo que 0,5% apresenta diagnóstico de dependência. Além disso, 25% das mulheres que bebem relataram ter engajado no padrão de consumo nocivo conhecido como Beber Pesado Episódico (BPE).

Com relação a este comportamento, a pesquisa “Vigitel Brasil 2019”, realizada pelo Ministério da Saúde, aponta que o consumo abusivo de álcool entre mulheres vem aumentado, particularmente entre mulheres mais jovens, entre 18 e 24 anos.

Risco para dependência entre universitárias

Em levantamento nacional sobre uso de substâncias entre universitários, a distribuição do risco para desenvolver dependência do álcool para as mulheres entrevistadas foi:

  • 84% baixo risco;
  • 15% risco moderado; e
  • 1% alto risco.

Tais dados reforçam a necessidade de cuidado e assistência, além de políticas de prevenção do uso nocivo de álcool e estratégias de intervenção direcionadas a essa parcela de 16% de jovens mulheres com chances relevantes de desenvolver problemas relacionados ao beber (4).

 

Álcool e nutrição

Pessoas que bebem mais também são propensas ao consumo de mais calorias, a partir da combinação de bebidas alcoólicas com alimentos ricos em gorduras e adição de açúcares, de acordo com estudo multicêntrico divulgado pelo National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism – NIAAA. O estudo com mais de 15 mil adultos norte-americanos revelou que o aumento da ingestão de bebida alcoólica foi associado com diminuição da qualidade da dieta. “Beber pesado e fatores relacionados à dieta foram independentemente associados com doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer e outros problemas crônicos de saúde. Esta descoberta levanta questões sobre a possibilidade da combinação do uso indevido de álcool e má alimentação interagirem aumentando ainda mais os riscos para a saúde.”, segundo o Diretor do NIAAA, Dr. Kenneth R. Warren (5).

Ainda, as bebidas alcoólicas fornecem muitas calorias (cada grama de álcool puro fornece 7 calorias), mas poucos nutrientes (proteínas, vitaminas ou minerais), por isso são chamadas de “calorias vazias”. Uma dose padrão de bebida alcoólica contém cerca de 80 a 100 kcal.

Vale lembrar que, quando consumido em excesso, o álcool pode diminuir a absorção ou prejudicar o metabolismo de diversos nutrientes. Por exemplo, interfere na absorção de vitaminas no intestino delgado e diminui seu armazenamento no fígado, com efeitos no folato (ácido fólico), na piridoxina (B6), na tiamina (B1), no ácido nicotínico (niacina, B3) e na vitamina A. Sendo assim, dependendo da quantidade e padrão de consumo do álcool, o estado nutricional de uma pessoa pode ser afetado seriamente (6).

 

Álcool e libido

Independentemente do sexo, o álcool pode aumentar a autoconfiança e levar à desinibição social. Isso pode facilitar, para alguns indivíduos, encontros afetivos ou sexuais ou, ainda, estratégias de conquista e busca de parceiros. Há a crença de que essa substância, quando ingerida em baixas quantidades, melhora o desempenho sexual ou aumenta a libido – na realidade, dependendo da quantidade ingerida, o álcool pode diminuir a libido.

Estudos recentes mostram que o álcool atenua a excitação sexual fisiológica; porém, quando consumido em baixas quantidades, está associado a maior excitação sexual autorrelatada. É possível que expectativas sexuais positivas associadas ao álcool levem a maior desejo sexual após o consumo de bebidas alcoólicas. As pessoas que acreditam fortemente que o álcool aumenta a excitação sexual e desempenho de fato relatam um aumento de desejo sexual, mesmo que fisiologicamente isso não seja observado.

Mais importante: tais expectativas positivas em relação aos efeitos álcool estão associadas a uma maior propensão a praticar sexo sem proteção depois de beber. Ademais, o álcool leva à diminuição da percepção de riscos e dificuldade na tomada de decisões. Assim, um dos maiores problemas decorrentes é ter relações sexuais sem proteção, o que aumenta os riscos de ocorrer transmissão de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada, por exemplo (7).

Em paralelo, o uso abusivo do álcool é fator de risco para comportamentos violentos, gerando maior vulnerabilidade a brigas ou relação sexual não consentida, sendo as mulheres mais expostas(8,9).

 

Álcool, ansiedade e depressão

Transtornos de humor e ansiedade coexistem com transtornos por uso de álcool em grande proporção. Estima-se que 30% das pessoas diagnosticadas com depressão e entre 20% a 40% das pessoas diagnosticadas com ansiedade possuem algum transtorno relacionado ao uso de álcool.

Ainda, no Brasil, estima-se que 34% das pessoas diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático tenham algum problema relacionado ao uso de álcool (10).

Sabe-se que sintomas de depressão e ansiedade são mais frequentes em mulheres que em homens, assim como sua coexistência com transtornos relacionados ao uso de álcool(10).

Outras particularidades dos potenciais danos do uso de álcool à saúde da mulher:

  • Danos ao fígado: maior propensão a desenvolver a inflamação do fígado;
  • Sistema cardiovascular: maior susceptibilidade à doença cardíaca relacionada ao álcool;
  • Câncer de mama: maior risco de desenvolver a doença a partir do consumo diário de uma dose de álcool;
  • Gravidez: qualquer quantidade de bebida alcoólica durante esse período representa risco para mãe e para o feto, que estará sujeito a dificuldades de aprendizado, prejuízos comportamentais e até a Síndrome Alcoólica Fetal.

Quando o consumo passa a oferecer risco?

Segundo a OMS (2018) não existe um consumo de álcool que seja absolutamente seguro. O NIAAA define consumo moderado para as mulheres como até uma dose de álcool por dia.

A OMS ainda recomenda que o consumo de bebidas alcoólicas não deve ser feito se a pessoa:

  • estiver grávida ou amamentando;
  • for dirigir, operar máquinas ou realizar outras atividades que envolvam riscos;
  • apresentar problemas de saúde que podem ser agravados pelo álcool;
  • fizer uso de medicamento que interage diretamente com o álcool;
  • não conseguir controlar o seu consumo.

Vale ressaltar que o uso de álcool também não é recomendado para crianças e adolescentes, pois o sistema nervoso central ainda está em desenvolvimento e, portanto, mais suscetível aos efeitos do álcool, podendo levar ao comprometimento de várias funções.

  • Referências:
    1. Piazza NJ, Vrbka JL, Yeager RD. Telescoping of alcoholism in women alcoholics. Subst Use Misuse [Internet]. 1989 [cited 2021 Feb 26];24(1):19–28. Available from: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3109/10826088909047272
    2. Fama R, Le Berre AP, Sullivan E V. Alcohol’s unique effects on cognition in women: A 2020 (re)view to envision future research andtreatment. Alcohol Res Curr Rev [Internet]. 2020 [cited 2021 Feb 26];40(2):1–17. Available from: /pmc/articles/PMC7473713/
    3. OMS. Global status report on alcohol and health 2018. Geneva: World Health Organization; 2018. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. Poznyak V, Rekve D, editors. 2018. 478 p.
    4. Andrade AG de, Duarte P do CAV, Oliveira LG de. I levantamento nacional sobre o uso de álcool, tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras. 2010;285–285.
    5. NIAAA. Diet Quality Worsens as Alcohol Intake Increases | National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) [Internet]. NIH – NIAAA. 2010 [cited 2021 Feb 26]. Available from: https://www.niaaa.nih.gov/news-events/news-releases/diet-quality-worsens-alcohol-intake-increases
    6. Lieber CS. Alcohol, liver, and nutrition. J Am Coll Nutr. 2003 Dec 1;27(3):220–31.
    7. Massaro LTS, Abdalla RR, Laranjeira R, Caetano R, Pinsky I, Madruga CS. Alcohol misuse among women in Brazil: Recent trends and associations with unprotected sex, early pregnancy, and abortion. Rev Bras Psiquiatr. 2019 Mar 1;41(2):131–7.
    8. Silva AF da, Estrela FM, Soares CFSE, Magalhães JRF de, Lima NS, Morais AC, et al. Elementos precipitadores/intensificadores da violência conjugal em tempo da Covid-19. Vol. 25, Ciencia & saude coletiva. NLM (Medline); 2020. p. 3475–80.
    9. Shield KD, Rehm J. Global risk factor rankings: The importance of age-based health loss inequities caused by alcohol and other risk factors. BMC Res Notes. 2015 Dec 14;8(1).
    10. Castillo-Carniglia A, Keyes KM, Hasin DS, Cerdá M. Psychiatric comorbidities in alcohol use disorder. Vol. 6, The Lancet Psychiatry. Elsevier Ltd; 2019. p. 1068–80.

Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool