Terapia cognitivo-comportamental (TCC) no tratamento da dependência de álcool

Entenda os princípios gerais de seu funcionamento e a maneira como a TCC pode ajudar pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool.

A Terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a psicoterapia individual mais recomendada para o tratamento de transtornos relacionados ao uso de álcool (abuso ou dependência) 1,2. De maneira geral, a TCC tem como ponto de partida para tratamento o modelo cognitivo, que dá especial atenção aos pensamentos (também chamados de cognições) que o indivíduo possa ter sobre si e sobre o mundo; isso é o primeiro princípio geral da terapia cognitiva e da TCC em geral: “nossos pensamentos afetam a maneira como nos sentimos e como nos comportamos”.

De maneira mais estruturada, existem três elementos que são gerais a todas as intervenções dentro da TCC3:

1 – Nossos pensamentos afetam o comportamento e emoções;

2 – Nossos pensamentos podem ser monitorados e modificados;

3 – Mudanças comportamentais desejadas podem ser alcançadas através de mudanças cognitivas.

Esses princípios gerais, contudo, se aplicam de diferentes maneiras, a depender do foco da terapia. Um fator determinante para a formulação dos objetivos da terapia é a prevenção de recaída. Tal foco assume que o paciente procurou tratamento de forma proativa e está disposto a mudar sua relação com o consumo de álcool. É muito comum que tal estado motivacional por parte da pessoa que tem problemas com o consumo de álcool só seja alcançado após algum tipo de intervenção breve, como é caso da entrevista motivacional. E, idealmente, um paciente motivado estará mais apto a desenvolver as habilidades para se abster do consumo de álcool através da TCC4.

Outras abordagens psicoterápicas apresentam foco semelhante. Um      diferencial é que,      de modo amplo, a prevenção de recaída dentro da TCC é concentrada em dois grandes polos: um reajuste na percepção de que é difícil, na condição de dependente do álcool, organizar e estabelecer regras sobre o consumo (chamada de “baixa autoeficácia”) e o controle ambiental para minimizar contextos favoráveis ao consumo de álcool4.

O primeiro polo visa precaver possíveis desajustes na percepção de controle sobre o consumo. Ao longo do tratamento, é comum a ocorrência de pensamentos como “vou beber só um pouco e já paro”, “vou beber hoje, mas amanhã não”, entre outros. Nesses casos, incentiva-se a percepção da baixa autoeficácia no controle do consumo de álcool, ajudando a pessoa a pensar em estratégias para não incorrer nesse tipo de pensamento. Para além do foco imediato na prevenção de recaída, a TCC costuma atentar para pensamentos comuns que a pessoa possa ter com relação a si e seu consumo de álcool. Entre pessoas com dependência, são comuns e intensos os pensamentos do tipo “só sou legal e sociável quando bebo”, “se eu não beber, fico estressado e não consigo relaxar”, ou ainda que o álcool, apesar do mal que possa trazer, é a única maneira de se sentir feliz, se desestressar e se relacionar com os outros. Nesse sentido, a quebra de tais entendimentos equivocados é parte central da abordagem em TCC4.

 

O segundo polo visa a redução de quaisquer estímulos que possam encorajar o consumo de álcool, e alguns dos tópicos comuns a serem abordados nas etapas iniciais da terapia são:

– Eliminar a maioria (ou idealmente todas) as bebidas alcoólicas presentes em casa;

– Evitar contextos que encorajam o consumo (bares, por exemplo);

– Encorajar atividades incompatíveis com o consumo (como exercícios físicos);

– Abarcar a família e amigos próximos para auxiliarem em mudanças de estilo de vida, reforçando comportamentos saudáveis e ajudando a minimizar situações que aumentem a probabilidade de consumo.

Existem muitos outros pontos de intervenção, e a análise deles deve ser feita com o profissional adequado. Por possuir um grande conjunto de intervenções, a TCC deve se adaptar às necessidades de tratamento de cada pessoa.

O uso de TCC, juntamente com intervenções breves e grupos de apoio (como os Alcoólicos Anônimos) estão entre as abordagens com grande índice de sucesso na recuperação de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool, principalmente se alinhadas a tratamentos farmacológicos2.

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  • Referências:
    1. Carroll KM, Kiluk BD. Cognitive behavioral interventions for alcohol and drug use disorders: Through the stage model and back again. Psychol Addict Behav. 2017;31(8):847-861. doi:10.1037/adb0000311
    2. Knox J, Hasin DS, Larson FRR, Kranzler HR. Prevention, screening, and treatment for heavy drinking and alcohol use disorder. The Lancet Psychiatry. 2019;6(12):1054-1067. doi:10.1016/S2215-0366(19)30213-5
    3. Dobson KS. The Science of CBT: Toward a Metacognitive Model of Change? Behav Ther. 2013;44(2):224-227. doi:10.1016/j.beth.2009.08.003
    4. Rangé BP, Marlatt GA. Terapia cognitivo-comportamental de transtornos de abuso de álcool e drogas. Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(SUPPL. 2):s88-s95. doi:10.1590/S1516-44462008000600006
    5. Castillo-Carniglia A, Keyes KM, Hasin DS, Cerdá M. Psychiatric comorbidities in alcohol use disorder. The Lancet Psychiatry. 2019;6(12):1068-1080. doi:10.1016/S2215-0366(19)30222-6
    6. Kelly TM, Daley DC, Douaihy AB. Treatment of substance abusing patients with comorbid psychiatric disorders. Addict Behav. 2012;37(1):11-24. doi:10.1016/j.addbeh.2011.09.010
    7. Hayes S, Hofmann S. Process-Based CBT: The Science and Core Clinical Competencies of Cognitive Behavioral Therapy. New Harbinger Publications; 2018.
    8. BECK JS. The Therapeutic Relationship in Cognitive-Behavioral Therapy. J Psychiatr Pract. 2018;24(6):443-444. doi:10.1097/pra.0000000000000340

Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool